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Bropriating

Reconhecer e quebrar esse padrão é o primeiro passo para criar ambientes mais justos

por Alexandra Fonseca
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
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Todos os dias vemos notícias de crimes contra as mulheres. Mas e aquelas pequenas violências diárias, sutis, veladas, que a maioria das mulheres nem consegue perceber e quando percebe, sequer é capaz de nomear?

Na última semana aconteceu uma Capacitação em Saúde da Mulher em Situação de Violência, numa ação conjunta do Conselho da Mulher de Rio Preto e do COREN-SP. Diante do sucesso do treinamento, que teve excelente repercussão a ponto de ser replicado em outros municípios, fomos surpreendidas com uma entrevista do secretário de Saúde (que, como noticiado por este jornal em 13/8/2025, responde a processo judicial por violência doméstica e teve a condenação revista em razão de os “prints” das mensagens de ameaça não estarem devidamente autenticados), onde realiza um verdadeiro malabarismo discursivo no aparente intuito de fazer a audiência crer que a realização do evento teria sido uma iniciativa sua, ou que teria sua contribuição, o que, segundo informação das organizadoras do treinamento, jamais ocorreu.

O projeto é fruto de um esforço coletivo e liderado por duas Mulheres: Patty Lopes (CMDM) e Vanessa Scarcella (COREN-SP) e essa pequena violência, mas que tem um impacto estrutural enorme tem nome: BROPRIATING.

É provável que você jamais tenha ouvido essa expressão (uma junção de “bro”, irmão, camarada e “appropriating”, apropriar-se) que é quando um homem se apropria da ideia, fala ou realização de uma mulher e tenta fazer parecer como se fosse dele. É como um “plágio social” que acontece no dia a dia, especialmente em espaços tradicionalmente masculinos como a política, o ambiente corporativo ou acadêmico, com o claro objetivo de usurpar o crédito e eventuais benefícios que deveriam ser dela.

Essa prática é tão naturalizada que, também na última semana, a ministra Marina Silva e a deputada estadual Marina Helou foram alvo, em um post onde o porta-voz estadual do seu partido se intitula “Fernando das Marinas”, “apropriando-se” de realizações destas lideranças como se dele fossem.

Essa forma de violência faz com que as contribuições de mulheres sejam sistematicamente apagadas, minando sua credibilidade e trajetória, desestimulando a participação feminina em debates enquanto reforça as desigualdades, dando visibilidade e autoridade a homens por ideias e realizações que não foram originalmente deles.

Bropriating é uma barreira sistêmica à igualdade de gênero. Reconhecer e quebrar esse padrão é o primeiro passo para criar ambientes mais justos e democráticos para as mulheres.

Alexandra Fonseca

Advogada, mãe, ativista e membra do Coletivo Mulheres na Política.