ARTIGO

Basta de misoginia: nós nos queremos vivas

Grupos como Red Pills e Incels radicalizam jovens no anonimato das redes sociais

por Maria Elenice Vicentini
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
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Vivemos uma escalada da violência de gênero fundamentada na misoginia. Não é apenas um sentimento isolado de ódio, mas um sistema de opressão que prega a inferioridade feminina e o controle sobre nossos corpos e escolhas, culminando frequentemente em morte.

O feminicídio — matar uma mulher por ser mulher — foi tipificado em 2015, mas a lei sozinha não basta. Em uma década, o crime cresceu 316%. No Brasil, o ano de 2025 bateu recordes com o registro de 1.568 casos: quatro mortes por dia. São vidas ceifadas que deixam famílias destruídas. Esses dados não são apenas estatísticas, são um grito de socorro.

Cerca de 81% das agressões ocorrem dentro de casa. O suposto porto seguro revela-se o local mais perigoso, onde parceiros, familiares ou pessoas conhecidas praticam violência física, sexual ou psicológica. Essa proximidade silencia denúncias pelo medo e pela dependência emocional ou financeira.

Nossa sociedade patriarcal concentra o poder nos homens, gerando desigualdade e exclusão. Hoje, o ódio cresce na “machosfera”, onde grupos como Red Pills e Incels radicalizam jovens no anonimato das redes sociais, pregando a superioridade masculina e desumanizando as mulheres de forma sistemática.

O recente estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro expôs essa crueldade: um dos acusados depôs usando uma camiseta com os dizeres “não se arrependa de nada”, evidenciando o desprezo pela vida e a sensação de impunidade. Para combater isso, o Senado aprovou o PL 896/2023, que criminaliza a misoginia, equiparando-a ao racismo. O projeto segue agora para a Câmara.

Na educação, a deputada Luiza Erundina propõe incluir o debate de gênero na grade curricular do ensino básico e médio. Educar é uma das formas de combater o preconceito. O objetivo é que crianças e jovens compreendam a igualdade de direitos e o respeito mútuo, desconstruindo estereótipos que alimentam a violência desde cedo.

É urgente que essas regulamentações virem leis para frear essa barbárie. O envolvimento do Estado, o compromisso coletivo da sociedade com a atuação ativa dos homens no combate à misoginia e ao feminicídio, é fundamental para mudar esta realidade.

Não aceitamos o luto como rotina. Precisamos deste marco civilizatório para que continuemos vivas e respeitadas. Nós nos queremos vivas!

Maria Elenice Vicentini

Mãe, enfermeira, servidora pública, Membra dos Coletivos Mulheres na Política, Lugar de Mulher é onde Ela Quiser e Linhas de Borá.