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Conjuntura

Baixa renda, alto endividamento

por Hipólito Martins Filho
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Hipólito Martins Filho (Hipólito Martins Filho)
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Hipólito Martins Filho (Hipólito Martins Filho)
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Pesquisa realizada pelo Instituto Nexus, encomendada pelo BTG Pactual, revela que o endividamento entre brasileiros de baixa renda está diretamente associado a despesas essenciais e choques de renda — como desemprego e gastos com saúde — e não ao consumo supérfluo, como frequentemente se argumenta.

Entre os entrevistados que recebem até um salário mínimo, 41% apontaram despesas com saúde como principal motivo para o endividamento, percentual significativamente superior à média nacional, de 32%. À medida que a renda aumenta, esse peso diminui: entre os que recebem mais de cinco salários mínimos, o índice cai para 19%.

Outro fator determinante é o desemprego. Entre os brasileiros com renda de até um salário mínimo, 22% afirmaram que a perda do emprego — própria ou de alguém da família — foi decisiva para o surgimento das dívidas.

Já os gastos cotidianos, como alimentação, aluguel, energia e transporte, aparecem como o principal fator de endividamento em todas as faixas de renda, mencionados por cerca de 50% dos entrevistados.

Nas classes de renda mais alta, porém, o perfil das dívidas muda. Depois das despesas do dia a dia (49%), o principal motivo passa a ser o consumo financiado. Entre aqueles com renda superior a cinco salários mínimos, 35% citaram compras parceladas e financiamentos como origem do endividamento.

O levantamento reforça uma realidade conhecida da economia brasileira: o endividamento das famílias está muito mais ligado ao custo de sobrevivência do que a excessos de consumo. Em muitos casos, a dívida surge para cobrir despesas básicas, especialmente em um ambiente de inflação elevada, juros altos e perda do poder de compra.

Ao mesmo tempo, o governo continua estimulando o consumo para sustentar a atividade econômica.

Nesse contexto, surgem programas como o Desenrola Brasil, voltados à renegociação de dívidas. Críticos argumentam que iniciativas desse tipo podem gerar distorções, ao beneficiar inadimplentes enquanto penalizam consumidores que mantêm suas contas em dia. Além disso, há quem veja um componente político nessas medidas voltado à manutenção do consumo.

As políticas de expansão do crédito e aumento de gastos públicos ajudaram a manter a economia aquecida mesmo em um cenário de juros elevados. Recentemente, o Banco Central do Brasil alertou para os riscos da expansão excessiva do crédito, especialmente para micro, pequenas e médias empresas, cuja capacidade de pagamento vem se deteriorando rapidamente.

Consumismo, baixa renda e endividamento formam um ciclo difícil de romper. Em uma sociedade fortemente influenciada pela publicidade e pelo consumo digital, comprar deixou de ser apenas uma necessidade e passou, muitas vezes, a representar status e pertencimento social.

Diversos estudos indicam que famílias de baixa renda destinam grande parte do salário para alimentação, moradia e transporte. Como a renda frequentemente não cobre todas as despesas, o crédito se transforma em complemento permanente do orçamento. Surge então a lógica do “compre agora e pague depois”.

Do ponto de vista comportamental, o problema também envolve fatores emocionais e psicológicos. O cérebro tende a priorizar o alívio imediato da compra em detrimento da dívida futura. Com juros extremamente elevados — especialmente no cartão de crédito e no cheque especial — a dívida rapidamente se transforma em uma bola de neve.

O PIB pode até continuar crescendo, mas parte desse crescimento está sustentada por um consumo fragilizado e fortemente financiado. Hoje, o Brasil convive com quase 80 milhões de inadimplentes.

Entre as famílias de baixa renda, o endividamento costuma apresentar três características principais: juros elevados, parcelamento de praticamente tudo e acesso fácil ao crédito por meio de aplicativos.

Para amenizar o problema, será necessário avançar em diferentes frentes: educação financeira prática, planejamento doméstico, acesso a crédito mais barato, aumento da renda e, principalmente, ganho de produtividade da economia.

O ideal é que o consumo seja guiado por necessidade e planejamento, e não pelo impulso. Manter as contas equilibradas não é apenas uma questão econômica, mas também de saúde mental e estabilidade familiar.

Se nada estrutural for feito, a tendência é de agravamento gradual do problema.