RADAR ECONÔMICO

As revoluções e as transformações

por Ademar Pereira dos Reis Filho
Publicado há 5 horasAtualizado há 5 horas
Ademar Pereira dos Reis Filho (Divulgação)
Galeria
Ademar Pereira dos Reis Filho (Divulgação)
Ouvir matéria

A Revolução Industrial é um dos temas discutidos dentro da História Econômica que sempre precisou ser analisado a partir de uma abordagem multidisciplinar. Ao contrário do que se imagina, essa “revolução” significou algo muito mais complexo do que, simplesmente, reunir um grande número de máquinas e operários em um galpão espaçoso, para produzir algo em escala. No início do século XX, poucos países podiam ser chamados de “industrializados”. Essa denominação era restrita à Grã-Bretanha, EUA, Alemanha, França, Bélgica, Itália e Suécia, por exemplo. É claro que existiam fábricas em outros países. No entanto, eram indústrias com pequena capacidade produtiva e pouco diversificada, quando comparadas à Grã-Bretanha, EUA, Alemanha e França, que, juntos, eram responsáveis pela produção de 2/3 de tudo que se fabricava no mundo, naquela época.

Além de alterar a forma e a velocidade da produção de bens manufaturados, a Revolução Industrial significou, também, um conjunto de grandes mudanças sociais. Uma dessas mudanças foi o surgimento de uma sociedade em que mais pessoas ganhavam salário atuando na própria atividade de manufatura ou em outras atividades necessárias para o funcionamento das indústrias e de seus respectivos processos de produção. Portanto, a atividade industrial passou a ser considerada uma alternativa concreta, capaz de mudar o padrão de vida de muitas pessoas.

Ao atrair mão de obra, outro impacto importante provocado pela expansão industrial foi uma profunda transformação na vida urbana. Em apenas alguns anos, diversas cidades passaram a ter populações maiores do que as de vários países. Para ilustrar essa transformação nos espaços urbanos, em 1801, apenas 16% dos ingleses viviam em cidades. Na década de 1890, as cidades inglesas possuíam 53% da população total do país. Em Berlim, entre 1800 e 1910, a população aumentou quase dez vezes, chegando a mais de dois milhões de habitantes. Nesse mesmo intervalo de tempo, a população de Viena cresceu cerca de oito vezes, e a de Londres, sete vezes (no início do século XX, Londres tinha mais de 7,2 milhões de habitantes).

Evidentemente, que esse crescimento populacional intenso e seus reflexos nos espaços urbanos provocaram consequências negativas. Na primeira metade do século XIX, os governos não interferiam no processo de transformação urbana que ocorria sem nenhum tipo de planejamento. Localidades como Manchester que, naquela época, era uma cidade do interior da Inglaterra que cresceu rápida e desordenadamente, e sem receber recursos públicos para os devidos investimentos em infraestrutura urbana, tinha uma expectativa de vida de 25 anos, para os recém-nascidos do sexo masculino.

As preocupações com necessidades de saúde e higiene eram lentas. Além da falta de conhecimento e de recursos, aqueles que influenciavam os negócios e as opiniões tendiam a concordar em deixar a “vida econômica” sem controle e a permitir que o mercado regulasse a maneira de viver das pessoas, como a melhor forma de assegurar crescente riqueza para todos. Era o tal pensamento liberal que muitos defendem como ideal, na atualidade. E esse foi o preço do laissez-faire: milhares de pessoas mortas em razão das condições sanitárias precárias e a condenação de homens, mulheres e crianças ao trabalho exaustivo nas fábricas, em troca de um salário baixíssimo. O cenário sanitário caótico só começaria a se alterar na segunda metade do século XIX, quando alguns políticos reformistas, que hoje seriam chamados de “comunistas” pelos neoliberais, começaram a exigir melhorias nos serviços públicos básicos (saneamento básico, água tratada etc.), e nas condições de trabalho.

Felizmente, as transformações urbanas do século XXI são menos cruéis. Apesar das questões relacionadas à violência, à exclusão social etc., ainda se fazerem presentes nas cidades que crescem de maneira diferenciada, seja pela industrialização ou por qualquer outro fator, há sempre a necessidade de que um conjunto de atividades econômicas sejam implementadas (comércios e prestadores de serviços, por exemplo). E é essa diversificação de atividades, juntamente com um planejamento adequado, que podem tornar um município próspero. Seria uma revolução para uma transformação!

Ademar Pereira dos Reis Filho

Doutor pelo IGCE-Unesp de Rio Claro e docente da Fatec Rio Preto