As nuvens pirocumulonimbus
Compreender essas nuvens enigmáticas fez a NASA sobrevoar um incêndio em Utah

Os vulcões podem lançar grandes quantidades de partículas na estratosfera, acima de 15 km de altitude. Os incêndios florestais também fazem isso, gerando imponentes nuvens pirocumulonimbus (piroCb) carregadas de fumaça. Essas nuvens podem gerar tempestades, raios, granizo e chuvas torrenciais.
Normalmente, as nuvens mais perigosas, as Cumulonimbus, chamadas de bigorna, atingem até 17 km de altura, nos limites da troposfera e da estratosfera, onde a temperatura do ar para de diminuir. As nuvens piroCB atingem a alta atmosfera, canalizam pulsos de partículas e gases para a estratosfera, geralmente seca e sem nuvens. Na estratosfera, a mais de 20 km de altitude, a fumaça pode permanecer por meses ou anos orbitando a Terra e provavelmente influenciando a camada de ozônio e o balanço energético da Terra.
Compreender essas nuvens enigmáticas e perigosas é o motivo pelo qual uma equipe de pesquisadores da NASA sobrevoou, em 3/8/2026, um grande incêndio em Utah, nos EUA, inclusive coletando amostras da fumaça. As imagens de satélites detectaram explosões sequenciais nesse incêndio que impulsionaram as nuvens de fumaça até o limite da estratosfera.
A ocorrência de múltiplas piroCB[s] em um único dia poderia ter complicado o trabalho dos meteorologistas e bombeiros que combatiam o incêndio e organizavam as evacuações. Minimizar esse tipo de incerteza para os meteorologistas é um dos principais motivos pelos quais a NASA sobrevoou o incêndio.
Os incêndios florestais produzem cerca de 70 piroCb[s] por ano, nas florestas do Canadá e da Rússia, embora também ocorram em grande número em pastagens e savanas nos EUA e na Austrália. Em 2026, foram identificadas pelo menos 13 piroCb[s] nos EUA.
Desde que as primeiras piroCb[s] foram relatadas na literatura científica no início dos anos 2000, foram catalogados mais de 700 eventos e acredita-se que os incêndios florestais podem contribuir com até 25% do carbono negro e dos aerossóis orgânicos na baixa estratosfera. A enorme frequência das piroCb[s] significa que a massa total de partículas que elas injetam ao longo de uma temporada de incêndios florestais pode rivalizar com a de grandes erupções vulcânicas.
Segundo a NASA, essas nuvens são enigmáticas, não está claro qual vegetação tem maior probabilidade de alimentar as piroCb[s], por que algumas geram mais raios do que outras, por que elas se formam em apenas uma pequena fração dos incêndios e como prevê-las com precisão.
Vivemos em um mundo de aquecimento e os grandes incêndios florestais podem gerar o seu próprio clima com nuvens de raios e ventos retroalimentando o próprio incêndio, em um cenário surpreendente e perigoso.
José Mário Ferreira de Andrade
Engenheiro civil e sanitarista.