ARTIGO

As galinhas, fora do prato

Ações observadas nessas aves, porém, vão muito além de simples instinto

por Hermione Bicudo
Publicado há 2 horasAtualizado há 1 hora
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Moradores das cidades estão acostumados a ver galinhas apenas nos supermercados, destrinchadas, ou à mesa, deliciosamente preparadas no forno ou fogão. Fora esse seu papel de comida humana, em geral sabemos pouco sobre elas. Pensei então que, dada nossa ampla “convivência”, poderia ser interessante mostrá-las sob outro enfoque: um grupo de aves com características biológicas e comportamentais próprias. Aqui me reporto ao comportamento de forma superficial, mas na literatura há grande quantidade de informações.

As galinhas (aves, Gallus gallus domesticus), soltas no ambiente externo, mostram hábitos instintivos, herdados de antepassados no processo evolutivo, como ciscar (mover a terra com as patas para achar alimento), tomar banho de areia (para se limpar de parasitas) e dormir bem juntas (busca de calor e proteção). A tanatose, em que se fingem de mortas para defesa, também está presente.

Outras ações observadas nessas aves, porém, vão muito além de simples instinto, como capacidade de raciocínio, de decidir após observações, de fazer planos, de contar e outras, justificando sua definição, na literatura, como “animais socialmente organizados e altamente inteligentes”. Seguem informações “enxutas” sobre algumas competências:

1. Organização social: caracterizada por uma hierarquia rígida de dominância, conhecida como "ordem de bicada". As aves “dominantes” do grupo não podem ser bicadas e têm prioridade na alimentação e uso dos poleiros.

2. Emitem mais de trinta sons diferentes (vocalizações como cacarejos, pios e gritos) para fins específicos de comunicar a postura de ovos, expressar emoções (felicidade ou tristeza), mostrar dominância hierárquica (canto do galo) e avisar sobre situações de perigo.

3. Memória social: pela visão, avaliam aspectos físicos (forma do corpo, postura e movimentos no andar), conseguindo, com esses dados, diferenciar até cerca de 100 indivíduos, incluindo os membros de seu grupo, humanos (como tratadores) e outros animais, permitindo distinguir entre “ameaçadores” e quem faz parte da rotina (tratadores), além de outros usos.

4. Diferenciam quantidade, maior ou menor.

A partir desses dados, uma reflexão simples (e óbvia): a forma, digamos, “displicente” com que o homem trata a natureza decorre muito de se achar um ser superior, dotado de características únicas, biológicas e emocionais. O avanço do conhecimento tem mostrado que várias delas existem também em outros animais, apenas como processos mais simples. As galinhas, embora já tenham revelado capacidades acima das expectativas, continuarão a ter a mesma função de “pilar nutricional e econômico do mundo atual”. Então, que, nos processos de manejo para diferentes fins, o homem procure preservar o conforto dessas aves, como gesto de respeito a suas emoções, cujo conhecimento aflora da observação e da pesquisa.

Hermione Bicudo

Professora Emérita da UNESP.