As canetas emagrecedoras, a crise climática e o turismo

A humanidade convive frequentemente com transformações abruptas que desafiam o entendimento imediato. Eventos complexos surgem sem aviso, alterando comportamentos e reconfigurando a sociedade. Na década de 1980, o surgimento da epidemia de HIV/AIDS chocou o mundo pelo desconhecimento e pela letalidade. Décadas de pesquisa científica transformaram o diagnóstico, que antes era uma sentença de morte, em uma condição crônica controlável. Contudo, a história se repete na forma de novos fenômenos de massa que, embora pareçam restritos aos consultórios médicos, geram profundos desdobramentos socioambientais. Mais recentemente, a Covid-19 descompôs o mundo.
Atualmente, o Brasil enfrenta uma severa crise de saúde pública, cerca de 60% da população adulta está acima do peso, e os índices de obesidade saltaram mais de 110% nas últimas duas décadas. Diante desse cenário, o mercado farmacêutico nacional registrou uma verdadeira revolução.
O nicho de injetáveis já movimenta aproximadamente R$ 10 bilhões anuais no varejo farmacêutico brasileiro, impulsionado pela promessa do emagrecimento sem o sofrimento de privações severas. No entanto, a busca individual pela perda de peso esbarra em uma contradição estrutural do sistema de abastecimento global. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU) e do IBGE, o Brasil descarta cerca de 30% de toda a comida que produz anualmente. Isso equivale ao desperdício alarmante de 46 milhões de toneladas de alimentos anuais, posicionando o país na 10ª colocação do ranking global de desperdício. Enquanto o excesso e o descarte ocorrem nas parcelas de maior poder aquisitivo, milhões de cidadãos ainda enfrentam a realidade da insegurança alimentar crônica.
Essa engrenagem de consumo desequilibrado pressiona diretamente as fronteiras ecológicas. Para manter os níveis de produção e atender à demanda de um mercado que desperdiça quase um terço do que gera, nações agrícolas expandem suas lavouras e pastagens à custa do desmatamento de vegetações nativas. O resultado direto é o agravamento das mudanças climáticas e do aquecimento global.
A análise integrada desses fatores levanta uma reflexão sobre o futuro do planeta. A consolidação da “cultura da magreza” e a redução do apetite em escala de massa têm o potencial de alterar as dinâmicas de consumo. Caso a demanda individual por alimentos sofra uma retração real e estabilizada, a pressão sobre a cadeia de produção agrícola diminuirá proporcionalmente? Menos excesso nas mesas significa menor necessidade de expansão de terras e, consequentemente, a redução do desmatamento?
Neste contexto, refiro-me a Carlo Petrini, lamentando profundamente sua morte recentemente. O idealizador e criador do Slow Food, movimento inicialmente contrário ao Fast Food amplamente difundido pelo mundo, com objetivos claros acerca do respeito e da tradição da diversidade alimentar. Petrini destacava a importância da valorização da pequena produção local, priorizando a agricultura familiar na produção de alimento.
No turismo, a gastronomia tem valor fundamental como fator de deslocamento. Fortemente inspirado na cultura alimentar dos continentes, o turismo se apropria da produção de roteiros que valorizam a matéria-prima local e a criatividade dos famosos chefs de cozinha. A Espanha teve seu encanto com o inusitado chef catalão Ferran Adrià, com a inventiva gastronomia molecular que trazia a experiência sensorial e artística.
A França, berço da alta gastronomia, remonta aos costumes da realeza de receber os visitantes com vastas refeições elaboradas com produtos locais preparados com altíssima qualidade. A exigência do paladar e a sofisticação resultaram no famoso terroir. Atualmente, a França é o país que mais recebe visitantes, cerca de 70 milhões, para a visitação dos ícones atrativos e também para desfrutar dos charmosos bistrôs e cafés.
Fenômenos globais de grande impacto, mesmo quando chegam sem explicações completas, podem funcionar como vetores involuntários de evolução coletiva. A moda da magreza veio para ficar, todavia, comer é um sentimento e, segundo Santo Agostinho, “O mundo é um livro e quem não viaja, lê apenas uma página”.
Célia Gomes
Membro do Conselho Municipal de Turismo (Comtur)