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ARTIGO

Armas e livros

Não vejo onde gritar “sentido” e “apresentar armas” mudará alguma coisa no intelecto desses alunos

por Lelé Arantes
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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“Apresentar armas!”
Ouço isso todo dia de manhã, de segunda a sexta, e não há nenhum quartel em um raio de cinco ou seis quilômetros. Pior, essa frase dói aos ouvidos, às sete da manhã, gritada e amplificada ao microfone. Ela ressoa dentro das casas vizinhas, reverbera no ar e chega aos quartos. Uma pessoa acamada deve amar com esse som estridente de manhã! Parece que os operadores fazem questão de aumentar o volume. Creio, na minha ignorância cívico-militar, que essa gritaria toda é para acordar os alunos.

Isso me faz lembrar meus tempos de grupo escolar. Em pleno período militar (ditadura para uns; revolução democrática para outros), nos anos 1960, chegávamos cedo ao pátio da escola. Era um pátio amplo, bem largo, que mais tarde receberia uma quadra de esportes. Ao primeiro sinal, todos corríamos para as filas. Cada qual na sua fila. Era hasteada a bandeira, cantávamos o Hino Nacional no gogó — não havia vitrola nem disco — sob o olhar atento da Dona Raquel. Ai de quem engasgasse na letra... o croque era certeiro, bem no cocoruto.

Cantávamos perfilados. Não havia ninguém gritando “sentido” aos berros. Não precisava. Depois da cantoria, cada fila se encaminhava para a sua classe. Juro, não precisava de ninguém arrebentando nossos tímpanos com a célebre frase: “Sexto ano A, sala 2”... “Oitavo ano B, sala 6”... O leitor deve estar se perguntando se esses alunos têm seis ou sete anos de idade. Oitavo ano é frequentado por pré-adolescentes de 13 anos! Cá entre nós, se um aluno com 13 anos não sabe caminhar sozinho até a sua classe na escola que ele frequenta todo dia, como é que essa pessoa vai se virar na vida?

Sentido!

O grito ressoa e os alunos se empertigam. Robozinhos na quadra da escola. Uma escola que leva o nome de um professor que ficaria de cabelos em pé com esse tratamento militarizado que chegou ao ensino fundamental público. Octacílio Alves de Almeida, deputado federal pelo velho MDB, era professor por profissão. Como diretor da Escola Senac Paiva Meira, ele acabou vindo morar em Rio Preto, onde fez extensa e profícua carreira política. Eu o entrevistei várias vezes nos anos 1980. Duvido que ele apoiasse a escola cívico-militar na rede pública.

Não tenho nada contra o ensino cívico-militar na rede privada, para pais que sonham com filhos militares, mas penso que não é um modelo para o público. Espero ser desmentido a longo prazo. Não vejo onde gritar “sentido” e “apresentar armas” mudará alguma coisa no intelecto desses alunos. Talvez “abrir livros” fizesse mais sentido em uma escola. É bem possível que eu esteja errado, mas ainda não me proibiram de externar minha opinião... Ainda não.
Os alunos entram e o silêncio reina. E a gente fica com aquela sensação de que algo não faz sentido. Principalmente porque, minutos após gritar um “descansar armas”, como um sargento teuto vociferando às filas dantescas de Dachau, reina absoluto o silêncio. O mesmo silêncio de antes da chegada dos militares, quando os alunos não precisavam “apresentar nem descansar armas” para irem aos cadernos e aos livros.

E do lado de fora a gente fica perguntando: que armas serão essas?

Lelé Arantes

Jornalista e historiador.