Aniversariar recomeços
Comemorar a sobrevivência não é negar a dor, tampouco romantizar o sofrimento

Há quem conte o tempo em anos, meses e dias. Eu aprendi a contá-lo também em recomeços. Cada ciclo que se encerra e cada fôlego retomado marcam, para mim, uma nova estação da alma. Aniversariar, portanto, deixou de ser apenas celebrar o nascimento biológico — tornou-se um rito simbólico de resistência, de renascimento e de libertação. Hoje completo 51 anos de vida, mas foi no último dia 11 que comemorei meu verdadeiro aniversário: sete anos desde que me libertei de uma relação violenta e de uma história que quase interrompeu a minha existência.
Existe um antes e um depois desse marco. A mulher que hoje escreve estas linhas não é a mesma que um dia acreditou que o amor poderia doer e, ainda assim, valer a pena. Sobreviver à violência é reaprender a respirar. É reunir os próprios cacos e, com eles, construir uma nova forma de existir. É olhar para o espelho e reconhecer não apenas as marcas do que passou, mas também o brilho do que resistiu.
Muito se fala — e com urgência — sobre as mazelas da violência de gênero, os números alarmantes do feminicídio e o luto coletivo que carrega os nomes de tantas mulheres silenciadas. Esses dados são necessários, pois revelam uma ferida aberta em nossa sociedade. No entanto, é igualmente essencial olhar para o outro lado da estatística: o das sobreviventes. As mulheres que, entre cicatrizes e coragem, reescrevem suas histórias e constroem novas possibilidades de vida.
Comemorar a sobrevivência não é negar a dor, tampouco romantizar o sofrimento. É transformá-lo. É dar a ele um novo significado, um lugar de potência. É afirmar que viver é um ato político, que o amor-próprio é uma ferramenta de revolução, e que cada mulher que rompe o ciclo da violência acende uma luz para tantas outras que ainda buscam uma saída.
Aniversariar recomeços é celebrar a resiliência que brota do impossível. É brindar à coragem de existir. É reconhecer que cada dia vivido após o trauma é uma vitória silenciosa, porém profundamente revolucionária. Cada passo dado fora da dor é uma declaração de liberdade.
Que possamos, como sociedade, aprender a comemorar também as vidas salvas, os renascimentos cotidianos e as histórias que continuam — não apenas as que se perdem. Que o verbo viver siga sendo conjugado por todas nós, com liberdade, afeto, ternura e esperança. Que nunca nos falte a coragem da resiliência e a capacidade de celebrar os recomeços.
Glau Ramires
Multiartista, Escritora, Ativista, Agente Territorial de Cultura, Conselheira da Mulher pelo Coletivo Feminista Lugar de Mulher É Onde Ela Quiser, Membra do Coletivo Mulheres na Política e Fundadora do Coletivo Filhas de Fênix