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Ampliar a arborização pode salvar milhões de vidas

É uma resposta eficaz e urgente para cidades mais humanas e preparadas para o futuro

por Kedson Barbero
Publicado há 15 horasAtualizado há 11 horas
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A ampliação da arborização urbana deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se consolidar como uma estratégia vital de saúde pública e planejamento urbano. Estudos recentes demonstram que o aumento significativo da vegetação nas cidades pode evitar milhões de mortes associadas às ondas de calor extremo, fenômeno cada vez mais frequente em um cenário de urbanização acelerada e aquecimento global.

Do ponto de vista de um arquiteto e urbanista, a árvore deve ser compreendida como uma infraestrutura essencial da cidade, tão importante quanto vias, redes de drenagem ou sistemas de transporte. A presença de arborização adequada atua diretamente no combate às ilhas de calor urbano, podendo reduzir as temperaturas locais em até 8 °C por meio da sombra e da evapotranspiração. Essa redução térmica impacta diretamente o conforto ambiental, o consumo energético e, sobretudo, a saúde da população mais vulnerável.

Além do efeito térmico, a arborização urbana desempenha papel crucial na qualidade do ar, capturando carbono, filtrando poluentes atmosféricos e contribuindo para a mitigação de doenças respiratórias e cardiovasculares. No campo da drenagem urbana, as áreas arborizadas aumentam a infiltração da água no solo, reduzindo o escoamento superficial e o risco de enchentes, problema recorrente em cidades impermeabilizadas e mal planejadas.

No entanto, apesar de seus benefícios amplamente reconhecidos, a arborização urbana ainda enfrenta entraves estruturais. A falta de planejamento técnico, o investimento insuficiente, o manejo inadequado das espécies e, principalmente, a desigualdade no acesso às áreas verdes. Em muitas cidades, a vegetação se concentra em bairros de maior renda, enquanto regiões periféricas permanecem mais expostas ao calor extremo e à degradação ambiental.

Cabe ao arquiteto e urbanista integrar a arborização desde as escalas do plano diretor até o projeto urbano e arquitetônico, considerando espécies adequadas, calçadas verdes, parques lineares, corredores ecológicos e a relação direta entre espaço construído e natureza. Arborizar a cidade não é apenas plantar árvores, mas projetar saúde, resiliência e justiça climática.

Diante dos desafios climáticos contemporâneos, investir em arborização urbana é investir em vidas. É uma resposta eficaz, acessível e urgente para cidades mais humanas, equilibradas e preparadas para o futuro.

Kedson Barbero

Arquiteto e Urbanista, diretor da Sociedade dos Engenheiros e Membro do CAU/SP.​​​​​​​​​​​​​​