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ARTIGO

Amor não é posse

O feminicídio destrói famílias e deixa marcas emocionais que atravessam gerações

por Eduardo Tedeschi
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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O feminicídio é a forma mais cruel de violência contra a mulher. Não é apenas um homicídio comum. É o assassinato motivado pelo fato de a vítima ser mulher, normalmente após um histórico de ameaças, controle, humilhações e agressões. Na maioria dos casos, o crime acontece dentro de casa e é cometido por parceiros ou ex-parceiros.

Os números mostram uma realidade alarmante. O Brasil registrou 1.512 feminicídios em 2025, média superior a quatro mulheres assassinadas por dia. No Estado de São Paulo, os casos aumentaram de 241 para 253 em um ano. No primeiro trimestre de 2026, a alta foi de 41% no estado.

Na região de São José do Rio Preto e do Noroeste paulista, o alerta também preocupa. O Deinter-5 registrou 14 feminicídios em 2025 e cinco mortes apenas nos três primeiros meses deste ano. Ao mesmo tempo, centenas de boletins de ocorrência por ameaça, agressão e violência psicológica são registrados mensalmente.

O feminicídio quase nunca acontece sem sinais prévios. O homem que controla roupas, celular, amizades, redes sociais e horários não demonstra amor. Demonstra posse. Relações afetivas precisam ser construídas sobre liberdade, respeito e igualdade, jamais sobre domínio. Casamento ou namoro não transformam a mulher em propriedade do parceiro.

As consequências são devastadoras. Filhos carregam traumas profundos, medo, ansiedade e insegurança. Muitas crianças crescem presenciando agressões e aprendendo, de forma errada, que violência faz parte da convivência familiar. O feminicídio destrói famílias e deixa marcas emocionais que atravessam gerações.

O Brasil possui leis importantes, como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, mas ainda falha na prevenção. Muitas vítimas são assassinadas mesmo com medidas protetivas. Falta monitoramento eletrônico de agressores, fiscalização permanente, ampliação das Patrulhas Maria da Penha e delegacias especializadas funcionando 24 horas.

Também falta investimento em educação preventiva. O combate à violência precisa começar nas escolas, ensinando crianças e adolescentes sobre respeito, limites, igualdade e convivência saudável. Uma sociedade que romantiza o ciúme excessivo e o comportamento possessivo continuará produzindo violência doméstica.

A denúncia precoce salva vidas. O telefone 180, as Delegacias da Mulher e as redes de apoio existem para interromper o ciclo da violência antes da tragédia. O feminicídio não é um problema privado de casal. É uma questão de segurança pública, dignidade humana e proteção da vida. Nenhuma mulher deve viver com medo dentro da própria casa.

Eduardo Tedeschi

Advogado e Jornalista.