América: olhar de um torcedor da arquibancada
O América precisa virar a página da história, sem esquecer como chegamos ao fundo do poço

Sou um torcedor de arquibancada, do concreto quente, do sol a pino, da camisa vermelha que me honra, que, em dias de jogos, conversa com torcedores como eu e que acompanham as informações da imprensa local. Senti na pele, como todos os americanos, as dores dos momentos mais difíceis dos nossos 70 anos de história. Ao longo destes quase 20 anos na última série do Paulistão, acompanhei todas as edições e paguei meus ingressos para estar lá. Em uma destas partidas, não tinham 30 pagantes; se a memória não me falha, éramos 27 e um único bilhete inteira vendido: o meu.
Defino a nossa história em 4 fases: em 1946 – 1996, a construção da vitoriosa história esportiva e de todo patrimônio; em 1997 – 2005, a incompetência e irresponsabilidade administrativa dos dirigentes que adquiriram dívidas monumentais e perderam todo nosso patrimônio, restando apenas o Teixeirão em condições precárias; em 2006 – 2023, decadência esportiva, com gestões decrépitas que nos levaram à última divisão; em 2024 – até hoje, a reconstrução, com intervenção da Justiça e a devolução do clube à sua torcida que, sob o comando do presidente Marcos Vilela, nos trouxe a esperança e o sonhado acesso.
Ao longo dos primeiros 50 anos, o sucesso esportivo fez com que a sociedade rio-pretense adotasse o América SP como a grande marca da cidade. Nosso clube levava o nome de Rio Preto e região a todos os cantos do Brasil. Chamava atenção de investidores e trazia investimentos e desenvolvimento.
Benedito Teixeira, o maior presidente do América SP em feitos administrativos, patrimoniais e esportivos, era gestor conhecido pela sua paixão, astúcia nos negócios e dignidade.
Segunda fase: o começo da tragédia. Ecoa aos meus ouvidos o dia em que ouvi de alguém que prestou serviço por muitos anos ao clube dizer que dirigentes canalhas o dispensaram depois de muitos anos de serviço com a frase: “se quiser receber, procure seus direitos na Justiça”. A demolição do estádio Mario Alves Mendonça e de toda a estrutura esportiva e social existente é símbolo deste momento.
Terceira fase: salta aos olhos a decadência de gestão e fundo do poço, homens sem talento, com moral duvidosa e contestados pela torcida. Tentativas de trapacear, muitas mentiras e promessas enganosas indicavam o ápice da decadência esportiva.
Quarta fase: o atual momento, em destaque: a recuperação moral de gestão, do prestígio esportivo e da credibilidade junto à sociedade rio-pretense.
Em nome daqueles 26 torcedores e de todos os outros americanos, que, como eu, estiveram presentes no Teixeirão na fase onde apenas o amor justificava nossa presença, deixo meus agradecimentos aos envolvidos na campanha deste ano. Ano do ressurgimento do nosso América SP!
A Marcos Vilela e toda a diretoria, agradeço pela seriedade e pelo elenco montado, que teve raça, atitude e bravura. Defenderam o América SP como há anos não víamos. A Kinho e a sua comissão, agradeço a postura da equipe. A torcida foi um show à parte: vibrou, cantou nosso hino e nosso amor e foi “o décimo segundo jogador”. Que os fatos sejam contados com verdade e que os exemplos sirvam para nunca mais passarmos pela penúria de "sub-existir".
Este artigo faço em homenagem ao Professor Manoel Antunes (em memória), americano de verdade, que trajava o vermelho com orgulho, rejeitava atos racistas e foi o único político rio-pretense que vi nas arquibancadas durante os anos difíceis.
Roberto Carlos Musegante Jr
Engenheiro Agrônomo.