Alto protecionismo, baixa produtividade
Ou adotamos uma nova agenda de integração comercial internacional, ou o Brasil continuará neste voo de galinha

Muita gente está aproveitando a onda do tarifaço imposta pelos Estados Unidos e querendo fazer crer que os nossos problemas econômicos, que estão aí há décadas, são consequência dessa maluquice imperialista do presidente Trump. Temos muitos problemas já diagnosticados que não foram solucionados.
Hoje, falaremos um pouco sobre o protecionismo no Brasil, que estrangula a produtividade e a renda do país. Temos uma economia muito fechada, pouca concorrência, baixa inovação tecnológica e a falta de um projeto de desenvolvimento econômico de médio e longo prazo, o que nos mantém presos em uma “armadilha de baixo crescimento”.
Somos uma das economias mais fechadas do mundo, criando barreiras para o nosso desenvolvimento, dificultando o acesso da população ao bem-estar e a uma qualidade de vida digna. Não fazemos parte das grandes cadeias de produção. Temos algumas ilhas de excelência, como o agronegócio e a Embraer, mas a nossa participação no comércio internacional é pouco significativa, pouco acima de 1% da economia mundial. Esse isolamento não nos permite crescer, jogando a renda para baixo.
O que foi proposto pelos governos nos últimos anos para solucionar esses problemas? Nada, ou muito pouco. E assim os problemas vão se acumulando ano a ano. O Brasil está vivendo, desde a década de 80, a chamada “armadilha do baixo crescimento”.
Os números mostram que o aumento médio do Produto Interno Bruto (PIB) esteve próximo a 7,5% entre 1950 e 1980 e despencou para cerca de 2,5% a partir de 1981. O que explica isso, na maioria, é a baixa produtividade, reflexo do precário sistema de ensino, da pouca tradição em ensino técnico, da baixa concorrência e do pouco investimento em novas tecnologias.
Vejamos alguns números extraídos de pesquisas: por hora trabalhada, a produtividade média foi de somente 0,5% ao ano entre 1981 e 2023. Enquanto a agropecuária registrou um avanço significativo de 6% ao ano, a indústria teve desempenho negativo, com queda média de 0,3% ao ano (-0,9% na indústria de transformação). O problema é que é justamente na indústria que são gerados os produtos com maior valor agregado, melhores salários e que poderiam turbinar a nossa balança comercial e ampliar a nossa participação no comércio mundial.
No setor de serviços, que representa 70% das horas trabalhadas, a produtividade estagnou. A redução dos preços dos produtos e serviços, a adoção de uma semana de trabalho de quatro dias e a melhoria do padrão de vida da população só ocorrerão quando melhorarmos a nossa produtividade. E isso não acontece com medidas protecionistas, que num primeiro momento favorecem a economia, mas que, a médio e longo prazo, são um desastre, atingindo diretamente aqueles que supostamente se queria defender.
Não se iludam em relação ao tarifaço do Trump. Por aqui também temos tarifaços: no setor de máquinas e equipamentos, onde as importações poderiam elevar a produtividade das nossas empresas, o Brasil tem as maiores tarifas do mundo, de até 11,5%, entre outras.
Ou adotamos uma nova agenda de integração comercial internacional, ou o Brasil continuará neste voo de galinha, crescendo em média 2% ao ano, o que é muito pouco, dadas as nossas necessidades e nosso potencial.
Vamos a alguns exemplos: se, nos anos 1980, um trabalhador brasileiro alcançava 46% da produtividade de um norte-americano, hoje ele produz um quarto (25,6%). Para ficar mais claro: o brasileiro leva uma hora para fazer o mesmo produto ou serviço que um americano realiza em 15 minutos.
O economista Fernando Veloso, do Centro de Debates de Políticas Públicas (CDPP), diz que preocupa ver que a maioria dos países emergentes continua reduzindo tarifas e se inserindo em cadeias globais de valor, enquanto o Brasil permanece parado e cada vez mais distante de seus pares, preso ao protecionismo e a questões ideológicas.