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Alô, alô... Tem alguém escutando?

A literatura já nos alertava para essa questão muito antes das redes sociai

por Simone Cristina Succi
Publicado em 25/07/2026 às 17:01Atualizado em 25/07/2026 às 17:06
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Tenho observado muita gente – a mim, inclusive – no ambiente de trabalho, nas relações pessoais e nos círculos sociais e constatado a dificuldade que temos de escutar. Uma dificuldade que, muitas vezes, chega a ser uma incapacidade. Falamos muito, temos opiniões sobre tudo, compartilhamos situações, respondemos e julgamos. No entanto, escutar – no sentido profundo da palavra – tornou-se um exercício raro. Escutar de verdade não significa apenas permanecer em silêncio enquanto o outro fala. Significa admitir que a realidade pode ser diferente das nossas convicções e romper com a certeza de que já sabemos tudo.

A literatura já nos alertava para essa questão muito antes das redes sociais. Em Ensaio sobre a lucidez, José Saramago narra que, numa cidade qualquer, a maioria da população decide votar em branco. O governo, em vez de tentar compreender as razões desse gesto coletivo, reage com desconfiança, tratando o cidadão como uma ameaça e não perguntando as causas desse feito. Assim, Saramago mostra que, quando abrimos mão da escuta, deixamos de investigar os fatos para interpretá-los de acordo com nossas crenças, a fim de preservar as nossas convicções já estabelecidas.

Tristemente, esse mecanismo não pertence apenas à ficção. Ele aparece quando um boato circula em um grupo de mensagens e o repassamos sem verificar sua veracidade; quando rompemos uma amizade por causa de uma postagem nas redes sociais; ou quando condenamos alguém por um vídeo de poucos segundos, sem conhecer seu contexto. Preferimos a rapidez do julgamento ao esforço da escuta. Agimos como os governantes de Saramago, pois se não compreendemos, buscamos respostas que confirmem nossas velhas e confortáveis certezas.

Quando volto à Filosofia da Linguagem, lembro que a linguagem não apenas descreve a realidade; ela também a constrói. Por isso, quando substituímos perguntas por acusações, argumentos por slogans e diálogo por rótulos, deixamos de construir convivência e passamos a alimentar conflitos. O outro deixa de ser alguém com quem podemos dialogar e passa a ser alguém que precisa ser derrotado.

Talvez Saramago não esteja nos alertando apenas sobre a surdez dos governos, mas sobre a nossa. A facilidade com que interpretamos silêncios como ofensas ou transformamos diferenças em ameaças revela que a intolerância começa muito antes dos grandes acontecimentos. Essas observações me levam a acreditar que a escuta seja uma das formas mais profundas de responsabilidade. Escutar não é concordar; é reconhecer que nenhuma pessoa, nenhuma história e nenhum acontecimento cabem inteiramente em nossas primeiras impressões. Em um tempo em que todos disputam a última palavra, talvez o gesto mais revolucionário seja fazer a primeira pergunta. Afinal, é somente quando deixamos de procurar culpados para começar a procurar sentidos que a convivência volta a ser possível.

Simone Cristina Succi

Doutora em Linguística Aplicada, professora e redatora de materiais didáticos.