ARTIGO

Alberto Youssef delatou, mas o Supremo apagou

Prisões, buscas, interceptações, condenações: tudo evaporou em nome do garantismo retroativo

por Ligia Maura Costa
Publicado em 18/07/2025 às 18:22Atualizado em 19/07/2025 às 11:29
Ligia Maura Costa (Ligia Maura Costa)
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O ministro Dias Toffoli voltou à cena com sua varinha de condão jurídica. O novo contemplado foi Alberto Youssef, doleiro reincidente, personagem central nos escândalos do Banestado e da Lava Jato. Em 15 de julho de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou todos os atos processuais contra ele. Prisões, buscas, interceptações, condenações: tudo evaporou em nome do garantismo retroativo.

Segundo Toffoli, houve conluio entre juiz, procuradores e Polícia Federal. A conclusão se baseou em mensagens hackeadas, provas ilícitas cuja autenticidade jamais foi comprovada. Para o ministro, o direito de defesa de Youssef foi violado, o que justifica a nulidade de todo o processo. Fica, porém, uma dúvida: se a delação premiada segue válida, como podem ser inválidos os atos processuais dela decorrentes?

A ficha de Youssef está agora literalmente lavada e não é um trocadilho. Suas confissões sobre o envio de milhões em propinas para políticos e empresários, bem como sua delação em dezenas de investigações, são juridicamente irrelevantes. A Corte decidiu que tudo isso fazia parte de um processo ilegítimo, mas, paradoxalmente, manteve a delação válida. Um malabarismo hermenêutico típico de tempos em que o réu é poderoso e o ambiente institucional é de indulgência.

A decisão segue o padrão já observado em outros casos julgados por Toffoli, como os de Antonio Palocci e Marcelo Odebrecht: todos absolvidos, não por falta de provas, mas pelo zelo formalista. O STF, antes protagonista na responsabilização de corruptos, agora se converte em redator da história, apagando os capítulos que incomodam.

O Brasil vive, ao que tudo indica, a contrarreforma do combate à corrupção. Em 2024, o país atingiu sua pior posição no ranking da Transparência Internacional desde 2012. Mas não falta quem prefira chamar isso de superação do “lavajatismo autoritário”. Afinal, é mais confortável garantir aos réus de colarinho branco não apenas ampla defesa, mas o privilégio da impunidade consagrada.

Os corruptos retornam à cena pública. Os investigadores são demonizados. E o Supremo se consolida como tribunal revisor da memória nacional: reabilita biografias, relativiza confissões, converte provas em perseguição. No Brasil de hoje, o problema não é o corrupto. É quem ousou investigá-lo.

Ligia Maura Costa

Advogada. Professora. Escritora do livro Lava Jato: Histórias dos Bastidores da Maior Investigação Anticorrupção do Brasil