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ARTIGO

Açúcar (em histórias amargas)

Vêm os flashes, em rajadas tortas: a palavra Aberração, os chutes vindo de todos os lados

por Alexandre Felipe de Oliveira
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
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Sinto o sal do mundo grudado na pele. Ele arde, mistura-se ao cheiro azedo da água de mijo da praia, à maresia suja que entra pelo nariz e parece não sair nunca mais. O chão é frio, áspero, e meu corpo está largado na horizontal, como coisa esquecida. Ao redor, bocas velhas vomitam preces sagradas, cheias de culpa disfarçada de bem-querer. Pedem a Deus por mim, mas não me veem. Os olhares são sutis como o aço fino da navalha: não cortam de imediato, mas prometem sangrar depois.

Por fora, estou imóvel. Por dentro, minha cabeça martela sem descanso. Vêm os flashes, em rajadas tortas: a palavra Aberração, a paulada seca, os chutes vindo de todos os lados. A dúvida cuspida no ar — “Ele morreu?” — seguida do veredito rápido: menos um lixo. Risos. Sempre os risos. O som deles é o que mais dói, porque prova que minha dor diverte. Sinto o gosto metálico do sangue e penso se ainda estou inteira ou só funcionando por hábito.

Dizem que quem passa por isso, quem quase vai e volta, encontra Deus. Veem luz, sentem paz, ganham respostas. Eu tô aqui esperando, mesmo duvidando, só pra dizer pra Ele que eu não quero mais. Não quero transcendência, não quero lição, não quero ser forte. Cansei de ser machucada. Só desejo um pouso manso, um lugar onde meus olhos possam descansar sem medo de acordar apanhando.

Lembro de todas as vezes que cheguei em casa chorando, o rosto inchado, o corpo doendo sem saber explicar. Minha mãe pegava um punhado de açúcar, colocava na concha da minha mão e dizia: “Engole, fia, isso é pra não te tornar amarga”. Depois vinha o aviso que era quase pedido de desculpa: “A mãe não consegue te proteger do mundo”. E, logo em seguida, o que realmente importava: “Mas eu te amo tanto, minha minina”.

Agora é quase meia-noite. O tempo escorre grosso. Sinto lágrimas doces pingando no meu rosto. Abro os olhos com esforço e reconheço o jeito dela. É minha véia. Ela se abaixa com dificuldade, me abraça forte como se pudesse me colar de volta em mim mesma e, com a voz embargada de choro, sussurra no meu ouvido, como quem oferece abrigo: “Fia, a mãe trouxe açúcar”.

O açúcar derrete na minha língua e, por um segundo, o mundo desacelera. Não cura, não apaga, mas sustenta. Entendo que sobreviver às vezes é só isso: alguém ficar quando tudo em volta vai embora. Entre sirenes distantes e o sal ainda queimando, deixo meu corpo pesar nos braços dela. Se existir algum milagre, talvez seja esse — não o céu, mas o colo da minha mãe.

Alexandre Felipe de Oliveira

Psicólogo clínico (CRP 06/142422), Especialista em Sexualidade e Gênero