Abertura, integração e instabilidades

Nos últimos trinta anos, a sociedade internacional passou por grandes transformações, com impactos generalizados em todas as regiões do mundo, impactando as estruturas econômicas e produtivas, gerando movimentações na comunidade, alterando por completo a lógica política, aumentando a exclusão social e transformando o comportamento humano. Todas estas transformações impactaram fortemente os seres humanos, gerando individualismos crescentes, aumentando a competição, degradando a ética, gerando valores imediatistas e transformando tudo em mercadoria. Com isso, vivemos numa sociedade que transforma tudo em produtos comercializáveis.
Neste período, percebemos que a economia global passou por grandes transformações, nas quais destacamos a inclusão de mais de 800 milhões de pessoas que viviam nos países asiáticos, indivíduos privados de produtos essenciais para a sobrevivência humana, cidadãos pobres e miseráveis que viviam em condições indignas, sem emprego, sem dignidade e sem perspectivas de sobrevivência decente e civilizada. Os ventos da globalização impactaram positivamente as nações asiáticas; com isso, passamos a incluir este contingente de indivíduos via políticas de emprego e fortes investimentos governamentais, centrados em políticas industriais e intervencionistas que privilegiavam os setores internos, além de grandes investimentos em pesquisa, ciência e tecnologia.
Tudo isso contribuiu, imensamente, para estimular uma transformação estrutural, fortalecendo empresas nacionais, exportando produtos variados, desenvolvendo tecnologias e angariando espaços no mercado internacional, levando a China a dominar mais de 30% dos produtos industriais comercializados no mercado global, gerando crises nos setores industriais ocidentais e gerando calafrios nos governos de países desenvolvidos.
A ascensão dos cidadãos asiáticos, até então pobres e miseráveis, transformou o cenário internacional e modificou a lógica política e geopolítica global, a classe média ocidental sentiu na pele e no bolso o crescimento dos mercados industriais orientais, notadamente chineses, que impactou a renda dos trabalhadores ocidentais, que perderam seus salários polpudos e sua estabilidade econômica, conhecendo a instabilidade produtiva e a desindustrialização, a redução dos salários monetários e passaram a perder o status quo acumulado desde a metade do século passado, convivendo com um forte crescimento da financeirização da economia, das incertezas crescentes, além da degradação da condição de vida da população e do medo dos imigrantes.
Neste ambiente, percebemos o crescimento acelerado dos discursos de ódio, da segregação e de ressentimento, levando ao poder político um grupo de pessoas despreparadas, desqualificadas e motivadas por soluções mágicas e imediatistas, sem planejamento econômico, sem estratégia política concreta e, com isso, percebemos o crescimento de guerras fratricidas, invasões militares, estimulando a degradação das instituições multilaterais, aumentando, com isso, a insegurança global e levando ao incremento de investimentos na indústria bélica e da defesa, além de estimularem inimigos imaginários culminando em violências crescentes, destruições de famílias e aumento da desesperança global.
Vivemos numa sociedade marcada por uma distorção crescente, um modelo econômico e produtivo que, ao incluir um grupo crescente de uma parte de indivíduos miseráveis e marginalizados, acaba gerando constrangimentos para outros grupos sociais e estimulando uma competição deletéria e degradante, gerando novos inimigos, opositores, desafetos e adversários. Essa sociedade deve ser vista como um fracasso civilizacional, ainda mais quando sabemos que as revoluções geradas pela tecnologia e pela inteligência artificial estão criando, cada vez mais, milionários e bilionários, que vivem e convivem num verdadeiro mundo paralelo e distante de bilhões de pobres, de miseráveis e de desesperançados.
Ary Ramos da Silva Júnior
Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.