Diário da Região
ARTIGO

A vida acontece no desconforto

Por que parar de fugir é o que nos permite seguir

por Bruna Bârbosa
Publicado há 14 horas
Após encerrar o ciclo do Aldeia Materna, Bruna Bârbosa inicia o projeto Tempo de Ser para debater bem-estar, saúde física e mental (Arquivo Pessoal)
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Após encerrar o ciclo do Aldeia Materna, Bruna Bârbosa inicia o projeto Tempo de Ser para debater bem-estar, saúde física e mental (Arquivo Pessoal)
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Todo começo de ano traz uma promessa silenciosa: agora vai. Agora eu vou me cuidar. Agora eu vou dar conta. Agora eu vou viver melhor.

Mas, poucas semanas depois, o corpo cansa, a mente se dispersa, a vida aperta. E aquilo que era intenção vira cobrança. O que era desejo vira culpa.

Na neurociência, sabemos que o cérebro não foi feito para nos fazer felizes, mas para nos manter vivas. Ele busca previsibilidade, controle e segurança. Tudo o que exige mudança, presença ou vulnerabilidade é interpretado como risco. E risco gera evitação. Não porque você é fraca, mas porque o seu sistema nervoso está tentando te proteger.

Estudos mostram que pausas conscientes reduzem a ativação da amígdala — área ligada ao medo e ao estresse — e fortalecem o córtex pré-frontal, responsável por foco, clareza e tomada de decisão. Quando respiramos, desaceleramos e voltamos ao corpo, o cérebro sai do modo de sobrevivência e entra no modo de escolha.

Por isso, tantas mulheres não desistem do que querem — elas apenas se perdem no caminho. Param de ir. Param de sentir. Param de olhar para si.

Talvez a pergunta mais honesta não seja “por que eu não continuo?”, mas sim: e se, ao invés de desistir, eu só passasse?

Passasse pelo dia difícil.

Pela semana bagunçada.

Pelo corpo cansado.

Pela mente que oscila.

A vida não espera a gente ficar pronta. Os filhos crescem. As oportunidades passam. Os dias seguem sendo vividos — ou apenas gastos.

Na psicologia, chamamos de tolerância ao desconforto a capacidade de permanecer presente mesmo quando não está fácil. É isso que sustenta mudanças reais. Não é motivação. É regulação. É consciência. É presença.

Talvez o que esteja faltando para muitas mulheres não seja mais força de vontade. Talvez seja um espaço interno — e às vezes coletivo — onde seja possível parar, respirar e lembrar de quem se é, antes de voltar para o mundo.

Não para virar outra pessoa.

Mas para seguir sendo quem se é, com menos fuga e mais verdade.

Porque viver bem não é não sentir desconforto.

É não abandonar a si mesma quando ele aparece.

E talvez o início do ano não precise de promessas grandiosas.

Talvez precise apenas de uma pausa honesta.

Bruna Barbosa

Jornalista, especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness, aluna especial da FAMERP e em formação pela Escola Internacional de Mindfulness. @eu.brunabarbosa