A tempestade que nos habita
Enquanto o mundo mede o sucesso pelo que se possui, Cristo o mede pela capacidade de servir

Recentemente, Ribeirão Preto experimentou a força da natureza, ventos violentos e chuvas intensas mudaram a paisagem em poucos minutos, derrubaram árvores, interromperam rotinas e nos lembraram de uma verdade que insistimos em esquecer - não somos senhores do tempo nem donos da vida.
Esses acontecimentos não precisam ser lidos como castigos divinos, mas podem ser compreendidos como convites à reflexão. A tempestade externa nos revela a tempestade interna que carregamos: a pressa, o orgulho, a ilusão de controle.
Vivemos em uma época em que a velocidade se tornou virtude, corremos para produzir, responder mensagens, acumular bens, enquanto o relógio dita nossas escolhas e o imediatismo nos aprisiona. Paradoxalmente, quanto mais a tecnologia avança, mais nos afastamos daquilo que nos torna humanos, afinal, conversamos com pessoas do outro lado do mundo, mas já não ouvimos quem está ao nosso lado.
O Criador não nos fez máquinas eficientes, mas seres capazes de amar, contemplar e compadecer-se. A maior pobreza do nosso tempo talvez não seja material, mas a ausência de presença; estamos em todos os lugares, menos onde realmente importa.
A vida passa depressa, guardamos dinheiro para um futuro incerto e adiamos o abraço, o perdão, a visita aos pais, a conversa com os filhos, o pôr do sol, esquecemos que a finitude não é ameaça, mas mestra e é justamente porque nossos dias são limitados que cada instante possui valor.
No fim, não seremos lembrados pelos bens acumulados, mas pelo amor que distribuímos, pela esperança que despertamos e pelo bem que fizemos. É hora de desacelerar, respirar fundo, erguer os olhos para o céu e reconhecer que há uma grandeza maior do que nossas preocupações. Cristo jamais convidou alguém a acumular riquezas; convidou-nos a acumular tesouros que o tempo não destrói: misericórdia, caridade, perdão e amor.
Enquanto o mundo mede o sucesso pelo que se possui, Cristo o mede pela capacidade de servir. E ao pé da cruz permanece Maria, em silêncio. Sua presença nos ensina que o amor resiste mesmo quando tudo parece desabar. Ela recorda que a ternura é mais forte que a dor e que a esperança nunca abandona quem confia em Deus.
Que as tempestades — como a que atingiu Ribeirão Preto — não apenas derrubem árvores, mas também nosso orgulho, nossa pressa e nossa ilusão de controle, e que nos tornem mais humanos, menos robôs; mais contemplativos, menos acumuladores, porque, diante da eternidade, não levaremos conosco aquilo que possuímos, mas aquilo que fomos capazes de amar.
Gilson Ribeiro
Contador, cronista, poeta e membro da Academia Maçônica de Letras e Cultura do Noroeste Paulista.