A TAXA DE JUROS PRECISA CAIR
Não se derruba a taxa de juros com palanques e discursos, exige-se uma política macroeconômica bem definida

Algumas variáveis econômicas são fundamentais para determinar as políticas econômicas que levem ao crescimento econômico. Poderia citar inúmeras, mas cito as principais, tais como: investimentos, poupança e consumo. Temos também a inflação, a taxa de juros e o câmbio. Não podemos esquecer o déficit público, a questão fiscal.
Vamos falar um pouco sobre a taxa de juros, que acabou de ser mantida em 15% ao ano. Sendo assim a taxa selic, que serve de referência para todas as demais taxas de juros, tornou-se a taxa de juros reais mais alta em 20 anos, ficando em 10,6%, a mais alta desde maio de 2006. Como a expectativa de inflação começou a cair, estima-se que na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) a taxa comece a cair. São muitos os fatores que estão contribuindo para esta alta taxa de juros, podemos citar como o principal o excessivo gasto público do governo federal. Enquanto não houver um equilíbrio fiscal, ou seja, gastar o que tem ou pouco acima do que tem, os consumidores e as empresas continuarão a ser penalizados. Sem dúvida, as incertezas de um mundo que está se transformando radicalmente e a falta de previsibilidade também são importantes na alta dos juros.
O patamar da taxa real de juros era de 7.0% a.a., portanto tivemos uma alta significativa, necessária em função da resiliência da inflação, mas que afeta os investimentos produtivos e fomenta a especulação no mercado financeiro. Mas se o governo não fizer a parte dele, os juros não cairão o suficiente para uma retomada real da economia. O que assusta é que mesmo com as altas taxas de juros reais, o gasto público primário da União, Estados e Municípios cresceu a um ritmo de 7% ao ano entre 2022 e 2024, contribuindo para o aumento do consumo das famílias, que acaba gerando mais inflação, já que a produção não acompanha a demanda.
A experiência mostra que o mercado de crédito amplia a oferta e quando há aumento de renda real também impulsiona o consumo, e as altas taxas de juros acabam sendo um freio. A professora do Insper Juliana Inhaz diz que a manutenção dos juros nominais e consequentemente a alta dos juros reais e a inflação de serviços ainda preocupam muito. Então, podemos perceber que a taxa alta é consequência e não causa. Podemos dizer que a sustentabilidade da dívida pública depende também de outras variáveis: resultado primário, crescimento econômico, nível de endividamento e taxa real de juros. Superávits recorrentes e crescimento sustentado ajudam a estabilizar a dívida, o problema é que nenhum dos dois estão ocorrendo no Brasil.
Os investimentos não ocorrem se os empresários não tiverem a percepção que as contas públicas irão se estabilizar. Não há disposição política para fazer as reformas estruturantes. O que também pressiona de forma consistente as taxas de juros é a deterioração da previsibilidade institucional. Vemos que os riscos embutidos nos juros de longo prazo incorporam também incertezas sobre a estabilidade das regras, a segurança jurídica, se esta segurança for frágil, o planejamento perde parte do seu valor, o investimento recua e o custo do capital sobe.
O enfraquecimento das contas externas também contribui neste processo,o desequilíbrio também está cada vez mais associado à baixa poupança doméstica e do crescimento estrutural das importações.
Como diz a economista Solange Srour, o mundo hoje é outro, a nova ordem global exige maior gasto, envelhecimento populacional fragmentação geopolítica e a necessidade de investimentos elevados, especialmente em tecnologia e defesa. O capital se tornou mais escasso e caro. Portanto, não se derruba a taxa de juros com palanques e discursos, exige-se uma política macroeconômica bem definida.