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ARTIGO

A quem interessa a exclusão das mulheres?

O poder real sempre esteve e sempre vai estar nas mãos daqueles que constroem mandatos

por Alexandra Fonseca
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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Comecei a semana com um debate um tanto curioso.

Falava sobre a importância de as mulheres ocuparem as direções partidárias e garantir apoio para as candidatas. Antes mesmo de eu concluir a fala e conseguir explicar o porquê de eu achar importante ter escolhido esse caminho, fui interrompida por uma companheira que disse discordar, defendendo não achar necessária a filiação partidária porque “tudo o que a gente faz é política”. Eu mesma tive essa visão por muito tempo, me retirei da atuação num partido e assim permaneci por mais de 20 anos fazendo a política do dia a dia.

Concordo que a atuação em um partido não é pra todo mundo. A violência política é diária; são ambientes hostis, principalmente para mulheres, mais ainda para as que não se sujeitam a imposições infundadas e insistem em lutar pelo que acham correto. Não é fácil.

Só que, quando falamos em política pública, a coisa muda de figura. Não há uma forma de fazer política pública no Brasil de maneira efetiva e sem estar inserida no ambiente partidário. O tão falado “poder da caneta” não é possível ser alcançado sem isso. É claro que é possível ter uma atuação social, ocupar um conselho de direitos, participar ativamente de um movimento coletivo, atuar no serviço público… tudo isso é política.

Mas o poder real sempre esteve e sempre vai estar nas mãos daqueles que constroem mandatos, nos coletivos partidários. E esse poder esteve e continua na mão daqueles que querem que a gente siga acreditando que dá pra fazer política sem estar filiada e atuante em um partido político.

Enquanto a gente nutre a crença, um tanto ingênua, de que vamos mudar o mundo com as nossas pequenas ações, num sistema em que, para acessar o poder e estar em um mandato, é obrigatório estar filiada a um partido, a transformação real e efetiva da sociedade vai ficando cada vez mais distante das mulheres e a nossa vida vai ficando cada vez mais difícil. Não existe espaço vazio. E aquele espaço que a gente não ocupa porque continua acreditando que não é para nós acaba sendo ocupado por quem não tem o menor compromisso com a sociedade.

E, quando a gente para pra pensar, na sociedade, na classe política que temos hoje, na falta de políticas públicas para mulheres e crianças, na precariedade do ensino público, no descaso com a saúde num país que tem a melhor legislação de acesso universal à saúde do mundo, não é possível deixar de me perguntar: a quem interessa que as mulheres permaneçam fora do ambiente partidário?

Alexandra Fonseca

Mãe, advogada, ativista é membra do Coletivo Mulheres na Política.