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RADAR ECONÔMICO

A planilha não mede o que sustenta o lucro

por DANIELA BRANDI
Publicado em 03/01/2026 às 14:40Atualizado em 03/01/2026 às 18:22
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Iniciar 2026 com ambição de crescimento é natural para qualquer organização que queira ganhar competitividade, ampliar mercado e sustentar resultados em um cenário econômico cada vez mais exigente. Mas existe uma certeza que precisa anteceder qualquer projeção: empresas não avançam apenas pelo que produzem ou vendem; avançam, sobretudo, por como as pessoas que constroem o dia a dia se sentem, se comunicam e se organizam internamente. A eficiência de um negócio não nasce apenas de processos bem desenhados, ela nasce do nível de clareza, confiança e maturidade emocional que sustenta esses processos quando a pressão aumenta, quando o conflito aparece e quando a mudança deixa de ser teoria para virar rotina.

Os últimos ciclos foram, para muitas equipes, um teste de realidade. Mudanças, revisões e ajustes de rota deixaram claro que a capacidade de adaptação não depende só de estratégia, depende de gente. Toda decisão relevante, principalmente aquelas que exigem coragem e reposicionamento, passa por conversas difíceis; e conversas difíceis só produzem avanço quando existe um ambiente em que a escuta é valorizada, em que a vulnerabilidade é possível sem virar fraqueza e em que a responsabilidade é compartilhada, não terceirizada. Quando isso acontece, não se trata de “clima”; trata-se de cultura organizacional sendo transformada na prática, com impacto direto sobre produtividade, cooperação entre áreas e qualidade das entregas.

Nesse contexto, inteligência emocional deixa de ser um tema comportamental acessório e passa a ocupar o lugar de alavanca econômica. Uma empresa que desenvolve líderes conscientes e times integrados reduz ruídos, encurta retrabalho, acelera decisões e melhora a experiência do cliente, ainda que indiretamente, porque a forma como as pessoas se relaciona por dentro aparece no que a organização entrega por fora. Onde há clareza, há agilidade; onde há diálogo, há alinhamento; e onde há alinhamento, há resultado. Ao contrário, quando o ambiente interno é marcado por medo, insegurança, silêncios e disputas improdutivas, o custo aparece em atrasos, perda de talentos, queda de qualidade e, principalmente, na incapacidade de sustentar performance no longo prazo.

É por isso que saúde emocional não pode ser tratada como bônus, gentileza ou benefício periférico. Ela é infraestrutura. É tão estrutural quanto tecnologia, governança e planejamento. Sem esse alicerce, até as melhores estratégias ficam frágeis, porque dependem de execução constante, de colaboração real e de consistência sob pressão. E consistência é um atributo humano antes de ser um indicador financeiro. A empresa que quer ser mais forte em 2026 precisa entender que cuidar das pessoas não é “diminuir a cobrança”; é aumentar a capacidade coletiva de enfrentar desafios, aprender mais rápido, corrigir rotas com menos desgaste e construir confiança para inovar.

Fazer diferente exige coragem, mas também exige método. Culturas mais saudáveis não surgem por espontaneidade; surgem quando se abre espaço para conversas verdadeiras, quando líderes são preparados para conduzir conflitos com maturidade e quando o time percebe que pode contribuir sem medo de retaliação. A partir daí, o que antes era desgaste vira solução, o que antes era ruído vira alinhamento, e o que antes era resistência vira compromisso. Quando as pessoas funcionam, o negócio flui; quando há propósito, há consistência; e quando há consistência, o crescimento deixa de ser um pico e passa a ser trajetória.

Em tempos em que quase tudo parece mensurável, é importante reconhecer que os resultados mais consistentes nascem de algo que não se coloca em linha de relatório. No fim, toda estratégia depende de gente, e toda meta depende de vínculos que sustentem a execução quando o cenário aperta. Colocar pessoas no centro é mais do que uma escolha de gestão, é um compromisso com a vida que existe dentro das organizações; quando o humano é respeitado e desenvolvido, o trabalho ganha sentido, o esforço encontra direção e o negócio segue com mais equilíbrio e constância. E é assim, com cuidado e consciência, que empresas deixam de apenas atravessar o presente e passam a construir um futuro realmente duradouro, para si e para a economia que ajudam a mover.

Daniela Brandi

Vice-presidente da Acirp