ARTIGO

A Noiva Devolvida – parte 2

Trocou a agulha de bordar as flores do enxoval morto pela caneta de estudar à noite

por Jocelino Soares
Publicado há 5 horasAtualizado há 1 hora
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Dizem que o tempo é um oleiro paciente, capaz de moldar no barro da humilhação a porcelana da resistência. Para aquela moça, o destino foi escrito com o giz da pressa e do preconceito nas paredes da Vila Rui Barbosa. Quando a última muda de roupa foi socada na mala de papelão e a porteira do sítio rangeu pela última vez, o pai, de cabeça baixa e ombros curvados, não ousou olhar para trás. O silêncio na boleia do caminhão de mudança era mais pesado que a carga de móveis velhos.

São Paulo, com seus prédios que desafiavam o céu e o barulho incessante dos bondes, foi o seu refúgio e sua escola. Lá, entre o cinza do concreto e o vapor das fábricas, ninguém perguntava do enxoval trancado no fundo do baú de cedro; ninguém queria saber se o lençol de linho trazia a mancha vermelha que a ignorância exigia como prova de caráter. Pela primeira vez na vida, ela deixava de ser a "devolvida" para ser apenas uma face na multidão de operários e sonhadores. A "mercadoria com defeito" revelou-se, enfim, uma engrenagem de aço.

Trocou a agulha de bordar as flores do enxoval morto pela caneta de estudar à noite, sob a luz elétrica que não tremia como a velha lamparina. As mãos, antes destinadas a servir um senhor de alma empedernida, aprenderam o ritmo da datilografia, o manejo das contas e a altivez que só o suor do próprio sustento garante. O suposto "defeito" sentenciado pelo marido era, na verdade, uma liberdade que ele, em sua pequenez de espírito, jamais teria capacidade de compreender ou suportar.

Décadas depois, o tempo operou sua justiça silenciosa. A mulher de passos firmes e olhar de quem conhece o mundo além das cercas de arame farpado decidiu que era hora de encarar os fantasmas de Ruilândia. Não voltou de charrete, nem sob o lamento das rodas de ferro no cascalho. Voltou ao volante do próprio carro, cortando a poeira da estrada com a segurança de quem não deve explicações ao vento.

Ao passar pela frente da velha venda, viu o ex-marido: um velho amargurado, sentado numa cadeira de balanço que rangia como sua consciência, mofando no mesmo lugar onde o mundo parara para ele. Ela não sentiu ódio, nem o desejo do revide; sentiu apenas o vazio da piedade. Foi até o antigo sítio casa dos pais e, com as chaves na mão, abriu finalmente o baú de cedro que cheirava a naftalina e a tempo morto.

Não houve choro. Com a calma de quem desfaz um feitiço, retirou os lençóis de bainha aberta — aqueles que seriam seu sudário — e os entregou para uma vizinha necessitada. O linho, enfim, serviria para aquecer quem tinha frio, e não para provar a virtude de quem já nascera santa. A noiva devolvida à família fora, enfim, devolvida a si mesma.

Jocelino Soares

Artista plástico – Pós-graduado Arte-educação. Membro Academia Rio-pretense de Letras e Cultura.