A Noiva Devolvida-1
Naquela roça de antigamente, o amor obedecia a um ritual de distâncias intransponíveis

Estamos nos aproximando de março, mês de homenagear as mulheres — especialmente aquelas cujas histórias o tempo tentou apagar sob o pó das estradas de chão. Refiro-me às mulheres da roça, de uma época em que o destino feminino era traçado antes mesmo do batismo.
A charrete que levava a moça de volta para o seio da família não fazia o mesmo barulho festivo daquela que, horas antes, a conduzira ao altar sob as bênçãos do vigário da Vila Rui Barbosa, hoje, Ruilândia. O som das rodas de ferro batendo no cascalho era agora um lamento fúnebre, seco como lágrimas antigas, como se a própria terra estivesse envergonhada do caminho de volta. Não havia flores decorando as laterais de madeira, nem o brilho de esperança nos olhos dos parentes, tampouco o foguetório que, ao meio-dia, anunciara a união de duas almas. Havia apenas o peso de um veredito proferido entre quatro paredes, no silêncio implacável da noite de núpcias, quando o marido, de alma empedernida e coração de pedra, sentenciou sem apelação:
— Podem levar de volta. A mercadoria veio com defeito.
Naquela roça de antigamente, o amor obedecia a um ritual de distâncias intransponíveis. O “pegar na mão” era um privilégio sagrado, reservado exclusivamente para depois das alianças trocadas e do "sim" diante do altar. Antes disso, o afeto media-se por rigorosos centímetros de vigilância, sob o clarão tímido da lamparina bruxuleante e o olhar atento — ora da sogra, ora do sogro — sobre o casal sentado na sala, mantendo o decoro exigido pelo mundo. A pureza da noiva, traduzida na virgindade física, era o patrimônio mais valioso de uma linhagem. Era uma linha fina de cristal que, se trincasse por descuido ou ímpeto, não havia reza, promessa ou cola que desse jeito.
Perdia o chão, o nome e o próprio direito de ser gente aos olhos do povoado. A outra opção, quase sempre desesperada, era o desterro: mudar-se para bem longe, para uma cidade grande onde seu rosto fosse desconhecido e seu passado não pudesse ser farejado pela maledicência dos vizinhos.
O destino de “ficar para titia” era, ironicamente, o mais brando dos castigos. O mais amargo vinha nos cochichos contidos nos terreiros, no desvio de olhar das antigas amigas e na sombra de uma culpa que nunca foi dela, mas de uma sociedade que punia o corpo feminino com uma crueldade sem fim.
O enxoval, bordado ponto a ponto com linhas de seda e sonhos de uma vida nova, acabava guardado no fundo de um baú de cedro, cheirando a naftalina e a tempo morto. Cada lençol de bainha aberta, cada fronha rendada, transformava-se em sudário de uma existência que morreu antes mesmo de florescer.
Jocelino Soares
Artista plástico – Pós-graduado Arte-educação, membro Academia Rio-pretense de Letras e Cultura.