A mercantilização junina e o desvio de função docente
Resgatar o sentido das festas juninas exige recolocar as pessoas no centro

Poucas manifestações possuem a força simbólica das festas juninas. Nascidas como celebrações comunitárias, elas sempre representaram, no ambiente escolar, um valioso espaço de encontro e partilha coletiva. Hoje, porém, essa tradição enfrenta um esvaziamento preocupante, sobretudo na rede privada de ensino.
O que antes era vivência cultural virou mercadoria. A festa deixou de ser da comunidade para se tornar estratégia de marketing institucional, meticulosamente planejada para captar matrículas, promover a marca nas redes sociais e gerar lucro. Nesse cenário, o espetáculo substitui a convivência, e a aparência sepulta a experiência pedagógica real.
Essa lógica de mercado impõe consequências severas ao trabalho docente. O professor, cuja missão principal é educar e mediar conhecimentos, vê-se rebaixado a uma mão de obra operacional barata. Em muitas instituições de ensino, no dia do evento, os docentes são escalados para limpar mesas, vender fichas, controlar portarias, fiscalizar brinquedos ou organizar filas.
Sob a ótica do Direito do Trabalho, essa prática configura manifesto desvio de função e clara violação da CLT. A legislação brasileira veda impor atividades alheias ao contrato original, especialmente quando realizadas fora da jornada regular e sem o devido pagamento de horas extras. Exigir que o educador atue como segurança ou caixa desvaloriza sua formação profissional.
Não se trata de negar a colaboração natural que existe em uma comunidade escolar. Professores sempre apoiaram festas organizando danças ou acompanhando alunos de forma voluntária. O abuso começa quando essa ajuda afetiva vira imposição funcional obrigatória para reduzir custos operacionais e gerar mais lucros no evento.
A escola tem o dever ético e pedagógico de preservar a cultura popular brasileira. No entanto, ao transformar essa celebração em uma vitrine comercial baseada na exploração do trabalhador, ela transmite aos estudantes uma lição perversa: a de que até a cultura deve se curvar às leis do mercado.
Resgatar o sentido das festas juninas exige recolocar as pessoas no centro. A escola privada tem o direito de gerir seu negócio, mas nunca à custa da dignidade docente. Urge que a fiscalização trabalhista e os sindicatos atuem contra esses abusos. Nenhuma foto perfeita ou estratégia de marketing vale mais do que o respeito a quem, diariamente, transforma informação em conhecimento. Afinal, a educação é um
Waldemar Rodrigues Pereira Filho
Professor e Diretor Secretário do Sinpro de Rio Preto