ARTIGO

A maioria silenciosa: Rio Preto e o vazio no Poder

Essa maioria demográfica é ignorada no centro nervoso do poder

por Allana Cegarra
Publicado em 08/03/2026 às 03:17
Allana Cegarra (Divulgação)
Galeria
Allana Cegarra (Divulgação)
Ouvir matéria

Zygmunt Bauman, o filósofo da "modernidade líquida", dizia que vivemos tempos de mudanças rápidas, onde as velhas estruturas derreteram. Mas, ao olharmos para o mapa do poder em São José do Rio Preto, a sensação é de que o relógio parou em uma era de pedra. Enquanto os discursos de 8 de março exaltam a "conquista de espaços", a realidade local nos lembra que o topo da pirâmide política ainda é um condomínio fechado, de acesso restrito e voz invariavelmente grossa.

A incoerência é óbvia. Embora a Constituição e a fé cristã preguem a igualdade, "todos somos um em Cristo Jesus", como diz a Bíblia, a prática em Rio Preto ignora tanto a lei quanto o altar. O que vemos é um abismo entre o que se prega e o que se vive.

Os números do último Censo não mentem: somos uma cidade majoritariamente feminina. Das mais de 480 mil pessoas que respiram o ar rio-pretense, as mulheres são a força motriz e a maioria absoluta da população. Somos dezenas de milhares a mais que os homens, representando a alma e o fôlego desta cidade. No entanto, essa maioria demográfica é ignorada no centro nervoso do poder, onde o destino do dinheiro público é decidido por mãos que não representam a realidade das nossas ruas.

Neste mês, a cidade completa 174 anos de fundação. Em quase dois séculos, o cenário na Câmara Municipal, instalada há 132 anos, é de um isolamento sistêmico: apenas uma mulher ocupa uma das 23 cadeiras atuais. Ao longo de toda a história legislativa, míseras 12 mulheres foram eleitas. Isso significa que as decisões que impactam diretamente o nosso prato, o nosso teto, o valor do IPTU e a Planta Genérica são tomadas por 95,6% de homens. Na prefeitura, o cenário é ainda mais rígido: desde 1852, a cadeira máxima jamais foi ocupada por uma mulher.

Essa exclusão tem consequências diretas no nosso bolso. Quando o poder ignora a cara de quem vive a cidade, as pautas que realmente importam, como a rede de proteção à mulher, a estratégia de creches e as políticas de cuidado tornam-se meras notas de rodapé.

Rio Preto não precisa de mais homenagens líricas ou flores. A cidade precisa encarar o seu próprio atraso prático. Mas essa mudança não virá por decreto; ela passa por uma reflexão incômoda: por que ainda votamos como sombras? Por que a maioria demográfica ainda escolhe se anular na urna, validando projetos que não a enxergam? Enquanto não rompermos com o vício de votar contra o próprio espelho, o 8 de março em Rio Preto será apenas um lembrete de que a representatividade, por aqui, ainda é uma promessa líquida que nunca se solidifica.

Allana Cegarra
Advogada e Assessora Parlamentar Federal