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A língua não se conserva

O último Carnaval mostrou uma mistura de tradição e reinvenção

por Simone Cristina Succi
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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A palavra é um território disputado no mundo das letras. A teoria da análise do discurso explica essa afirmação ao mostrar que o sentido não está na palavra em si, mas nos discursos em que ela circula. Vejam só: a palavra malandro, por exemplo, pode significar criminoso, sujeito esperto ou mesmo figura simpática da cultura popular. Malandro também é aquele personagem astuto e charmoso dos sambas de Noel Rosa e Bezerra da Silva que, mesmo sendo pobre, veste terno branco, sapato envernizado e chapéu.

Outra palavra — essa mais moderna — que tem circulado com um sentido diferente do literal é lacrar. No dicionário, lacrar significa fechar com lacre; hoje, especialmente nas redes sociais, quer dizer arrasar num argumento, ganhar a discussão, como em “Ela rebateu o comentário machista e lacrou”.

Essas questões que tratam das palavras e de seus significados são muito caras para mim porque desmontam a ideia aparentemente óbvia de que as palavras guardam o sentido dentro delas e revelam que não são neutras, pois carregam disputas, ideologias e experiências coletivas.

O último Carnaval mostrou bem isso, numa mistura de tradição e reinvenção, em que ideologias e disputas político-sociais desfilavam travestidas de “família”, “comunidade”, “resistência” e “conservadorismo”, trazendo à tona memórias e posicionamentos. O que mais chamou a atenção foi a “Família em Conserva”. Nesse jogo de palavras, simples e sofisticado ao mesmo tempo, o bloco carnavalesco parecia sugerir que a família “conservadora”, aquela que conserva valores e sustenta posturas inflexíveis, passa a ser lida como algo “em conserva”: enlatado, fechado e artificialmente preservado.

Deixo de lado julgamentos de modelos familiares ou de posicionamentos políticos para observar o funcionamento da língua. “Família em conserva” é um gesto discursivo que produz uma ironia socialmente construída: “conserva”, relacionada a “conservador”, traz um sentido de clausura e estagnação, emergente da fusão da palavra com a história e o contexto.

Como a linguística é fascinante! Essa ciência nos permite enxergar que a palavra, em sua natureza, não é agressiva nem delicada e que, no fim das contas, “Família em Conserva”, “malandro”, “lacrar” e muitas outras não carregam sentidos prontos; ganham vida nas relações sociais de que fazem parte. Por isso, mais do que perguntar o que uma palavra significa, é importante entender o que ela está fazendo naquele momento, naquele contexto, na boca daquela pessoa, seja na avenida, nas redes sociais ou na conversa cotidiana. É aí que a linguagem revela sua força: não como objeto estático, mas como prática viva, histórica e profundamente humana.

Simone Cristina Succi

Doutora em Linguística Aplicada, professora e redatora de materiais didáticos.