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A indústria da raiva agradece seu comentário

Talvez o gesto mais subversivo não seja gritar mais alto, mas se calar diante da provocação barata

por Márcio Vidoti
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
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O fato de rage bait ter sido eleita a Palavra do Ano de 2025 pelo Dicionário Oxford diz muito sobre o tempo em que vivemos. Mais do que um termo da internet, o conceito revela uma lógica dominante da comunicação digital contemporânea: provocar indignação virou método, e a raiva passou a ser tratada como ativo de engajamento.

Rage bait é o conteúdo criado com a intenção deliberada de irritar. Não se trata de opinião firme, erro de tom ou crítica contundente. Trata-se de estímulo calculado à reação emocional. As plataformas digitais são estruturadas para recompensar engajamento, e poucas emoções engajam tanto quanto a indignação. Quanto mais comentários exaltados, mais alcance. Quanto mais conflito, mais visibilidade. A raiva, nesse modelo, virou moeda.

O problema é que esse mecanismo distorce o debate público. Temas complexos são reduzidos a frases provocativas. Questões sérias viram disputas de torcida. O espaço para nuance, escuta e reflexão vai sendo substituído por respostas rápidas, impulsivas e frequentemente agressivas. Não há tempo para pensar porque o sistema não premia o pensamento. Premia a reação.

O resultado é uma sociedade exausta, nervosa e superficial. Todo mundo fala, ninguém escuta. Todo mundo reage, ninguém pensa. A raiva permanente empobrece o debate, achata o diálogo e anestesia o senso crítico. Quando tudo vira escândalo, nada mais escandaliza. O excesso de indignação produz apatia.

Talvez o gesto mais subversivo hoje não seja gritar mais alto, mas se calar diante da provocação barata. Não comentar, não compartilhar, não entrar no jogo. Em tempos de rage bait, a pausa vira resistência. O silêncio vira escolha consciente.

Porque uma coisa é indignação moral, aquela que nasce do inconformismo e move transformações reais. Outra, bem diferente, é a indignação industrial, fabricada em série, programada para provocar e circular. Essa não quer mudar o mundo. Quer mantê-lo permanentemente em conflito, barulhento e dividido, enquanto transforma nossa raiva em alcance, nossa indignação em engajamento e nosso cansaço em lucro.

Márcio Vidoti

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