A esperança de uma alegria adiada
Que a grande Marta e as jogadoras orgulhosas da seleção feminina nos tragam o título inédito

Ninguém se preparou mais para a Copa do Mundo do que as crianças. Elas pintaram as ruas, usaram camisas, trocaram figurinhas, hastearam bandeiras, pintaram a cara (você, que viveu no início da década de 90, sabe a força que teve uma cara pintada de verde e amarelo).
Lembro da bolinha da Tec Toy que brilhava na mão nos anos 90 e do mascote com cabeça de bola da Copa da Itália. Eu tinha, naquele campeonato, a idade da minha filha mais velha neste ano de 2026. Não sou torcedora, mas sei o que significa socialmente viver uma Copa na infância, como a gente acredita, confia, se envolve.
E, mais uma vez, como nos últimos 24 anos, o título não veio. Não tenho escopo algum para falar de futebol (embora eu saiba o que é um impedimento, o que não é assim tão difícil de entender, viu?). Mas algumas coisas me incomodaram, a mim e a milhões de pessoas, acredito. Entre elas, a bola da vez: as bets. Essas infelizes protagonistas entraram em campo amplamente, mesmo condenando famílias inteiras ao endividamento, ao caos e, não raro, à tragédia.
Muito me admira que pessoas que têm um orgulho danado de bater no peito e se dizerem cristãs defendam cegamente quem se aproveita da exploração desse desastre coletivo para lucrar (de maneira especial, um certo menino que pouco mostra em campo, mas não perde uma oportunidade sequer de correr para as redes fazer propaganda das tais).
Mas, deixa estar! Nas costas das camisas das minhas meninas está estampado o número 10. E em cima dele um nome que tenho a esperança de ver brilhar na próxima Copa: Marta!
Eu não tinha essa alternativa incrível em 90, quando perdemos também nas oitavas para a Argentina de Maradona. A primeira Copa Feminina foi realizada apenas em 1991, na China. Aliás, por quase 40 anos (entre 1941 e 1979), as mulheres eram proibidas de jogar futebol no Brasil. E, hoje, temos a maior artilheira do mundo, com 17 gols feitos em copa. Ela perdeu o título de maior artilheiro geral para o Messi, com 20 gols. No entanto, ela ainda pode recuperar a marca no ano que vem. Marta foi eleita seis vezes como a melhor jogadora do mundo pela FIFA. A menina que ganhou sua primeira chuteira aos 11 anos (dois números maiores do que ela usava na época) se tornou uma ativista na luta contra as desigualdades no esporte.
Aguardem, crianças! Em 2027, a Copa Feminina será realizada no Brasil. Espero que vocês consigam ir à forra com essa alegria que tiveram de guardar. E que quem respeita o manto e merece ser chamada de rainha, a grande Marta, e as jogadoras orgulhosas da seleção feminina nos tragam o título inédito de campeãs do mundo.
Ariana Pereira
Mãe, jornalista e membro do coletivo Mulheres na Política.