A data que nos fez quem somos
Mais um mês de julho termina. E, mais uma vez, quase ninguém lembrou

O dia 19 de julho de 1894 foi o momento mais decisivo da história de São José do Rio Preto. Nessa data, o presidente do Estado de São Paulo, Bernardino de Campos, sancionou a Lei nº 294, emancipando o então distrito de Jaboticabal e criando um município autônomo, com governo, orçamento e decisões próprios. Foi quando Rio Preto passou a conduzir o próprio destino.
Mesmo assim, a data segue praticamente ignorada pelas instituições públicas, pelo sistema educacional e por grande parte da imprensa. Neste julho de 2026, apenas o Diário da Região, por meio do jornalista Fernando Marques, lembrou o significado histórico da emancipação.
A pergunta é simples: sem 19 de julho de 1894, Rio Preto seria o que é hoje? A resposta é não.
A emancipação não foi uma formalidade burocrática. Foi uma decisão política baseada na percepção de que uma região distante cerca de 180 quilômetros da sede, ligada por viagens de dias em estradas de terra, precisava administrar seus próprios recursos, arrecadar seus impostos e definir suas prioridades.
O principal articulador desse movimento foi Pedro do Amaral Campos. Nascido em Araraquara, em 1842, filho de uma mulher negra alforriada, chegou a Rio Preto em 1885 e construiu uma liderança marcada pela capacidade de articulação e pelo compromisso com o interesse coletivo. Ao seu lado estavam João Bernardino de Seixas Ribeiro, fundador do povoado, e Adolpho Guimarães Corrêa, que se tornaria o primeiro prefeito no modelo administrativo moderno.
Da emancipação vieram a comarca, a organização administrativa, a primeira planta urbana, elaborada por Ugolino Ugolini em 1895, e as condições que permitiram a chegada da Estrada de Ferro Araraquarense, em 1912. A partir dali, Rio Preto consolidou sua posição como polo regional e desenvolveu uma economia marcada pelo empreendedorismo.
Há uma diferença essencial entre as duas datas que marcam a cidade. O 19 de março de 1852 registra a fundação do povoado. O 19 de julho de 1894 representa a autonomia política, quando Rio Preto deixou de depender de outro município para construir seu futuro. Um marca o nascimento; o outro, a maioridade.
No entanto, o aniversário da emancipação passa quase despercebido. As escolas pouco abordam o tema, as instituições raramente o celebram e a memória coletiva perde uma das páginas mais importantes da história local.
Lembrar Pedro Amaral e seus companheiros não é apenas prestar homenagem ao passado. É reconhecer que a cidade existe como a conhecemos porque um grupo de homens decidiu, em 1894, que o futuro desta terra seria construído pelos próprios rio-pretenses.
Ainda há tempo de corrigir esse esquecimento.
Eduardo Tedeschi
Advogado e jornalista.