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ARTIGO

A Copa de Cabo Verde e a nossa alma africana

Que a garra de Vozinha e seus companheiros inspire nossas escolas

por Eduardo Alves de Lima
Publicado em 30/06/2026 às 00:13
Eduardo Alves de Lima (Divulgação)
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Eduardo Alves de Lima (Divulgação)
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A Copa do Mundo de 2026 tem sido um espetáculo de superação, e a histórica participação da seleção de Cabo Verde arrebatou os corações brasileiros. Sob as traves, o veterano goleiro Vozinha virou um herói improvável, operando milagres contra gigantes mundiais e provando que o talento desafia prognósticos. Mas, para além das quatro linhas e das defesas espetaculares de Vozinha, a presença dos "Tubarões Azuis" no maior palco do futebol mundial desperta em nós, brasileiros, uma conexão muito mais profunda. Esse torneio nos oferece o gancho perfeito para refletirmos sobre o que nos une: a nossa imorredoura matriz cultural africana.

Nossa língua, o português brasileiro, pulsa no ritmo do quimbundo e do iorubá, em palavras cotidianas como caçula, dengo e bagunça. À mesa, o dendê, o acarajé e o angu alimentam não apenas o corpo, mas a memória de povos que trouxeram saberes tecnológicos sofisticados em agricultura, metalurgia e mineração, erguendo a infraestrutura deste país. Nas ruas, a capoeira — misto de dança, luta e filosofia de resistência —, o samba e o jongo dão movimento e som à nossa identidade. A África não é um anexo na história do Brasil; ela é o alicerce sobre o qual nossa nação foi edificada.

Por isso, essa Copa nos lembra de que a valorização dessa herança não pode ficar restrita aos campos de futebol ou às celebrações sazonais. É nas salas de aula que a verdadeira transformação ocorre. A Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, é um marco civilizatório fundamental. No entanto, após mais de duas décadas de sua aprovação, sua plena aplicação prática ainda esbarra na histórica carência de materiais pedagógicos adequados e de projetos permanentes de formação continuada para os docentes.

Os professores são os verdadeiros técnicos que preparam nossa juventude para enfrentar o preconceito e valorizar a diversidade. Frequentemente abandonados à própria sorte, esses profissionais carecem de apoio institucional básico. Sem o devido reconhecimento e amparo, a lei corre o risco de virar letra morta. Educar para as relações étnico-raciais exige sensibilidade e investimento público real na valorização e na carreira docente. Afinal, combater o racismo estrutural começa ao garantir que o professor tenha condições dignas de semear a igualdade na mente de seus alunos.

Que a garra de Vozinha e seus companheiros inspire nossas escolas a defenderem, diariamente, a riqueza da nossa ancestralidade. Que os laços entre nós e o irmão africano se fortaleçam na educação e no esporte. Avante, Brasil, rumo à glória nos gramados, e força, Cabo Verde, continuem escrevendo essa linda história!

Eduardo Alves de Lima
Professor de História e Pedagogo, Diretor Social do Sinpro Rio Preto e Região e Diretor Adjunto de Formação Política e Sindical da FEPESP.