A casa onde o Brasil se abraça
Há seis décadas, o FEFOL transforma a memória do povo brasileiro em política pública e em festa

Há um instante, todo mês de agosto, em que Olímpia deixa de ser apenas uma cidade do interior paulista. É quando as primeiras toadas de bumba meu boi atravessam a arena, um tambor de congo responde de longe e uma criança segue de mãos dadas com um mestre que dança desde menino. Nesse instante, a cidade inteira se reconhece como parte de um país imenso, e o folclore deixa de ser palavra de dicionário para virar gente, suor e devoção.
É isso que se repete, de 1º a 9 de agosto, na 62ª edição do Festival do Folclore de Olímpia (FEFOL). Mas seria pouco chamá-lo de festa. O que sobe ao nosso palco não é encenação nem reconstrução: é prática viva, trazida por quem mantém essas tradições acesas no próprio território de origem.
São famílias inteiras, dos 2 aos 90 anos, como no boi de mamão catarinense; bandas de congo que guardam oito décadas de história; bacamarteiros, foliões de reis, afoxés e quadrilhas que carregam a biografia de uma comunidade. Do sertão de Sergipe ao coco de roda alagoano, do tambor de Marajó ao afoxé da Baixada Fluminense, é o Brasil inteiro que se apresenta, não como espetáculo distante, mas como herança que ainda se dança.
Criado em 1965 e realizado sem interrupção desde então, o FEFOL é um dos eventos de cultura popular mais longevos do país. Foi essa perseverança ao longo de seis décadas que fez de Olímpia, conhecida no país por suas águas termais, também uma referência nacional em cultura popular.
Neste ano, o festival bate um recorde histórico: foram 147 grupos inscritos, dos quais mais de 50 chegam ao palco, ao lado dos grupos da nossa terra, que seguem protagonistas. São cerca de 2.800 artistas e 180 mil visitantes em nove dias. Por trás dos números, há o que não se mede: o encontro.
A edição celebra o Jubileu de Alecrim sob o tema “Aquele Abraço”, que homenageia o Rio de Janeiro e traduz o espírito acolhedor do próprio festival. É também uma das maiores renovações de elenco de sua história: dezessete grupos estreiam, e Roraima pisa pela primeira vez neste palco. Cada estreante alarga o mapa de tradições que cabem nesta cidade.
Defender o folclore é uma escolha de política pública. Em Olímpia, ele não fica restrito ao palco: é projeto na rede municipal de ensino, parte do currículo que forma, desde cedo, novos artistas e novas plateias. É assegurar que os saberes passem de uma geração à outra e reconhecer mestres e mestras como guardiões de uma sabedoria que nenhum livro substitui. O festival move a economia e fortalece o turismo, sim, mas o seu valor maior é humano.
Foi por isso que escolhemos “Aquele Abraço”: porque o FEFOL é um reencontro entre culturas, entre gerações, entre quem preserva e quem descobre. Em agosto, Olímpia volta a ser a casa onde o Brasil inteiro se abraça. Cuidar dessa casa, com respeito e afeto, é o compromisso que renovamos a cada ano.
Priscila Foresti
Secretária de Cultura e Defesa do Folclore de Olímpia.