Diário da Região
ARTIGO

A angústia por trás da escolha profissional

Toda escolha implica perda: ao optar por um caminho, muitos outros ficam para trás

por Roberta Grangel
Publicado há 10 horas
Roberta Grangel (Divulgação)
Galeria
Roberta Grangel (Divulgação)
Ouvir matéria

Poucas perguntas são tão frequentes no consultório quanto esta: “E se eu escolher errado?” Ela costuma surgir em momentos decisivos da vida. Por exemplo, ao término da etapa escolar, na troca de carreira, após uma demissão ou mesmo quando, aparentemente, “tudo está no lugar”. Por trás dela, não está apenas a dúvida sobre uma profissão, mas uma angústia mais profunda: o medo de dar um passo que pareça definitivo demais.

Vivemos em uma cultura que exige decisões precoces e cobra sucesso, estabilidade e felicidade quase como obrigações morais. Escolher uma profissão, nesse contexto, ganha um peso desproporcional: como se dela dependesse o sentido da vida inteira. Não é raro que o sujeito se paralise diante da escolha, adiando-a indefinidamente ou buscando respostas prontas que prometem eliminar o risco do erro.

Do ponto de vista psicológico, escolher nunca é um ato neutro. Toda escolha implica perda: ao optar por um caminho, muitos outros ficam para trás. É justamente esse “ônus” da escolha que produz angústia. Não se trata de imaturidade ou falta de informação, mas da dificuldade humana de lidar com a incerteza e com os limites do controle sobre o futuro.

Quando trabalho com a orientação profissional na clínica, especialmente penso para além de testes e listas de aptidões, é importante oferecer um espaço valioso para um trabalho interno. O psicólogo não vai responder à pergunta “o que fazer?”, mas ajudar a sustentar outra, mais fundamental: “quem sou eu e o que desejo construir com meu trabalho?” O trabalho, afinal, não é apenas meio de subsistência; ele participa da construção da identidade, do lugar social e da relação com o próprio desejo.

É importante lembrar que escolher não é definir tudo de uma vez por todas. Ao longo da vida, revisitamos escolhas, reformulamos caminhos e atribuímos novos sentidos ao que fazemos. A ideia de uma decisão perfeita, definitiva e sem sofrimento é uma ilusão que, muitas vezes, só aumenta a angústia.

Talvez a pergunta mais fecunda não seja “e se eu escolher errado?”, mas: “o que posso aprender, transformar e elaborar a partir das minhas escolhas?” Quando há espaço para reflexão, escuta e elaboração psíquica, a escolha deixa de ser uma sentença e passa a ser um processo — imperfeito, humano e possível.

Roberta Grangel

Psicóloga Clínica. Mestre em Psicologia pela Unesp-Assis.