A alienação da romantização do crime
A lógica do confronto permanente mostrou-se profundamente irresponsável

A discussão sobre segurança pública costuma ser atravessada por simplificações e caricaturas que pouco ajudam a enfrentar o problema real da violência. Uma das mais recorrentes é a ideia de que propostas progressistas “romantizam o crime”, tratando-o como mero resultado da exclusão social produzida pelo capitalismo. Essa leitura é equivocada e empobrece um debate que precisa ser conduzido com seriedade, responsabilidade e compromisso com a complexidade da realidade brasileira.
Reconhecer que desigualdade social, racismo estrutural, precarização do trabalho e ausência histórica do Estado em determinados territórios contribuem para a produção da violência não significa justificar ou legitimar o crime. Trata-se de compreender suas causas profundas para que as políticas públicas não se limitem a respostas imediatistas, punitivistas e ineficazes. Compreender o contexto social do crime é condição para preveni-lo, não para desculpá-lo.
Quando a segurança pública concentra suas ações quase exclusivamente nos espaços da pobreza, reforça estigmas sociais e produz uma falsa sensação de controle. O combate efetivo ao crime organizado passa pela investigação qualificada, pelo enfrentamento da lavagem de dinheiro, pela quebra de esquemas de corrupção, pela responsabilização de agentes públicos e privados que lucram com a ilegalidade e pela reforma das próprias instituições de segurança e justiça.
Nesse contexto, é indispensável mencionar o caso do Rio de Janeiro. As ações adotadas pelo governador do estado, frequentemente apresentadas como demonstração de força e eficiência, não resultaram apenas na morte de criminosos, mas também colocaram em risco a vida da população e dos próprios policiais.
A lógica do confronto permanente, vendida como “pulso firme”, mostrou-se profundamente irresponsável. Uma política de segurança baseada na letalidade fracassa em dois aspectos centrais: não desarticula o crime organizado em suas estruturas mais profundas e tampouco garante a segurança daqueles que atuam na linha de frente. Valorizar a vida dos policiais significa oferecer condições dignas de trabalho, formação adequada, inteligência policial e estratégias que reduzam o confronto armado, e não que o intensifiquem.
Portanto, a perspectiva defendida pela esquerda não é a da romantização do crime, mas a do reconhecimento da complexidade do fenômeno da violência.
Reduzir esse debate à oposição entre “repressão” e “direitos humanos” é uma armadilha. O verdadeiro desafio é construir uma política de segurança pública que seja, ao mesmo tempo, eficaz no enfrentamento do crime organizado e comprometida com a dignidade humana, rompendo com a lógica seletiva que pune sempre os mesmos e preserva os verdadeiros centros de poder da criminalidade. Só assim será possível avançar em direção a uma sociedade mais segura, justa e verdadeiramente democrática.
Érico Fumero
Professor, Doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago de Compostela-Espanha.