80 anos depois
A Segunda Guerra Mundial não foi apenas um conflito em escala global, mas sim um evento que trouxe à tona toda a capacidade destrutiva humana

Para o historiador inglês Eric Hobsbawm, o “breve século XX” foi marcado por alguns grandes eventos. Para ele, o processo da Primeira e o da Segunda Guerra Mundial, além da Guerra Fria, caracterizaram, nos campos político, econômico e cultural, todo o século passado. Como historiador, observamos o véu da realidade e, com ele, buscamos compreender os eventos passados à luz da atualidade. No tempo presente, observamos o predomínio da violência, seja no campo prático ou no simbólico.
Nada de novo, pois toda a história humana foi marcada por reiteradas práticas de violência. Contudo, no processo das Grandes Guerras Mundiais, a melancólica existência humana ganhou contornos ainda mais dramáticos e sombrios.
A Segunda Guerra Mundial não foi apenas um conflito em escala global, mas sim um evento que trouxe à tona toda a capacidade destrutiva humana, seja por meio dos discursos, seja pelas ações militares. Em seu fatídico contexto, já com a derrocada militar do nazifascismo, restava apenas o sonho megalomaníaco de um império japonês.
Com extrema violência, o Japão, durante os anos 1930, foi responsável por uma série de invasões em solo chinês, principalmente na região da Manchúria, que passou a contar com a liderança, no movimento de resistência, de Chiang Kai-shek e Mao Zedong. Após violentas incursões, o Japão anexou ainda ao seu território as Filipinas, Tailândia, Malásia, além da própria China e da Coreia (que foi capitulada em 1910).
Com o sucesso das operações militares na região oriental do mundo, a alta cúpula dos militares, juntamente com o próprio imperador Hirohito, passou a vislumbrar um império japonês maior e mais poderoso, capaz de alcançar também as áreas ocidentais.
Com esse objetivo, foi iniciada uma série de operações para viabilizar esse domínio. Contudo, foi nesse momento que os nazistas foram derrotados pela coalizão dos Aliados. Com a morte da alta cúpula do partido nazista na Alemanha, assim como de Mussolini e seus aliados na Itália, as forças ocidentais, principalmente os Estados Unidos, passaram a monitorar de perto as operações japonesas.
A partir de março de 1945, os Estados Unidos, que já estavam em campanha militar contra o Japão desde 1942, passaram a desferir uma ofensiva nas ilhas de Iwo Jima e Okinawa, impondo a derrota ao exército japonês a um custo altíssimo (cerca de 20 mil mortos do lado estadunidense e quase 121 mil mortos japoneses).
Como resultado prático, esses dois conflitos mostraram que, mesmo sem chances de vitória, os japoneses resistiriam até o fim. Esse foi o pretexto que os Estados Unidos usaram para justificar os devastadores ataques nucleares: primeiro, em 6 de agosto, às 8h15 da manhã, na cidade de Hiroshima; em seguida, no dia 9 de agosto, às 11h02 da manhã, foi a vez de Nagasaki ser bombardeada. Em números totais, mais de 200 mil pessoas foram mortas pelas explosões nucleares, o que provocou, em 15 de agosto, a total rendição do Japão, encerrando de vez a Segunda Guerra Mundial.
Oitenta anos após os ataques atômicos, o mundo ainda vive sob o medo da guerra. As bombas atômicas não ficaram apenas na memória e no imaginário do povo japonês, mas também nas ações que observamos no campo da diplomacia e dos inúmeros conflitos atuais, que sempre nos remetem a esse lugar de temor.
Embora já tenha se passado quase um século desde os ataques, o armamento nuclear continua sendo proliferado e, mais do que isso, usado como moeda de troca política entre diversas nações do mundo. Quase um século depois, o homem ainda não aprendeu a resolver suas divergências pelo diálogo, mas sim pelo uso das armas. Será que o homem um dia conseguirá viver em paz? Ou seria a paz um privilégio para poucos?
Andrew Okamura Lima
Historiador e filósofo