ARTIGO

8 de março é sobre a mulher de hoje

O 8 de Março é um dia para lembrar que direitos foram conquistados com luta

por Melissa Cerozzi
Publicado em 08/03/2026 às 03:15
Melissa Cerozzi (Divulgação)
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Melissa Cerozzi (Divulgação)
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Eu começo pelo presente. Porque é nele que a mulher vive. É nele que ela trabalha, cria filhos, paga contas, enfrenta medo, supera preconceito e ainda precisa provar, todos os dias, que merece estar onde está.

Em 2026, nós estudamos mais. Ocupamos cerca de 37% dos cargos de liderança no Brasil. Temos uma lei de igualdade salarial aprovada em 2023. Mesmo assim, ainda ganhamos, em média, 21% a menos que os homens. Voltamos da licença-maternidade com medo de perder o emprego. Muitas perdem. Outras ficam estagnadas. Ainda há quem estranhe quando uma mulher ocupa o poder.

E quando a jornada termina no trabalho, começa outra. Dentro de casa, seguimos dedicando, em média, o dobro do tempo aos afazeres domésticos e aos cuidados com os filhos. Somos cobradas para dar conta de tudo. Quando não conseguimos, vem a culpa. A exaustão virou silenciosa, mas não deixou de existir.

Enquanto isso, a violência cresce. O Brasil fechou 2025 com cerca de 1.518 mulheres assassinadas. Quase quatro por dia. Em quase 65% dos casos, o crime aconteceu dentro de casa. O lar, que deveria ser abrigo, virou cenário de medo. E agora existe também a violência digital, com ataques e ameaças nas redes sociais que tentam nos calar e afastar da política e da vida pública. É olhando para essa realidade que eu entendo o verdadeiro sentido do 8 de Março.

Muita gente acredita que a data surgiu por causa de um incêndio proposital em uma fábrica nos Estados Unidos, onde morreram queimadas mais de cem mulheres e seus filhos. Não foi assim. O Dia Internacional da Mulher nasceu de greves e manifestações de trabalhadoras na Europa e nos Estados Unidos no início do século 20. Mulheres que exigiam salário digno, menos horas de trabalho e respeito.

Em 1917, na Rússia, tecelãs foram às ruas pedindo “Pão e Paz”. A mobilização foi o estopim da Revolução Russa. Décadas depois, em 1975, a Organização das Nações Unidas oficializou o 8 de Março como data internacional. No Brasil, a data sempre teve peso político. Ela ajudou a impulsionar leis fundamentais, como a Lei Maria da Penha, de 2006, e a Lei do Feminicídio, de 2015. Nada veio de presente. Cada avanço foi fruto de pressão, mobilização e coragem.

Por isso, quando falamos em futuro, falamos também de propostas concretas. Integração real entre as delegacias das mulheres das cidades da região para fortalecer a proteção. Apoio ao empreendedorismo feminino para garantir autonomia financeira. Creches em tempo integral e debate sério sobre licença-paternidade para dividir responsabilidades.

O 8 de Março não é uma data para flores. É um dia para lembrar que direitos foram conquistados com luta. E que a igualdade ainda não é completa. Eu escrevo este artigo como mulher. Mas também como jornalista. E como cidadã que sabe que democracia de verdade só existe quando homens e mulheres têm as mesmas oportunidades, o mesmo respeito e a mesma segurança. O passado explica a data. O presente exige ação.

Melissa Cerozzi
Jornalista, diretora da Porta 9 Agência de Comunicação e Mestre em Comunicação Pública pela ECA-USP.