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Olhar 360

Alguém que nos enxergue

Não é questão de gosto musical. É sobre identidade, e sobre quem lucra em nos convencer de que somos algo que não somos

por Beto Braga
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Beto Braga (Beto Braga)
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Trinta mil ingressos vendidos. Trinta mil pessoas de preto num show aqui, em São José do Rio Preto. Slash no palco, Axl na voz, e uma cidade inteira desmentindo a narrativa que lhe foi colada por anos.

Alguém ainda acredita que Rio Preto cabe num rótulo?

Não é questão de gosto musical. É sobre identidade, e sobre quem lucra em nos convencer de que somos algo que não somos.

O show do Guns N’ Roses não nasceu de política pública. Nenhuma secretaria planejou. Nenhum secretário assinou ofício. A cidade foi escolhida porque o mercado enxergou o que os gestores municipais teimam em ignorar: Rio Preto é polo regional capaz de absorver eventos de escala nacional sem tutela pública. A nova configuração da região metropolitana chegou a essa conclusão antes da prefeitura.

Enquanto isso, o poder municipal gastou cerca de R$ 6 milhões no Carnaval Sertanejo. Dinheiro público. Atrações trazidas de fora. Retorno em empregos que duraram o tempo do palco desmontado. Um palco. Desmontou. Sumiu. A cidade ficou com a conta.

O contraste entre os dois eventos diz mais do que qualquer relatório de gestão.

Mas voltemos ao rótulo de cidade conservadora. Há menos de quinze anos, Rio Preto esteve a um fio de eleger um prefeito do PT, quando a aprovação de Lula e de Dilma sustentava índices altos. O atual prefeito não foi eleito por carregar o apoio de Bolsonaro. Foi eleito porque a cidade o enxergou como outsider, alguém de fora do esquema que engessou a gestão por décadas. Não foi voto ideológico. Foi voto de ruptura. O eleitor rio-pretense reconhece resultado, não escolhe bandeira.

Essa é a Rio Preto que eu conheço: pragmática e curiosa, que não espera o governo descobrir o que ela já sabe. Em 2013 e 2014, o Movimento Startups Rio Preto realizou dois Startup Weekend que acompanhei de perto e cujos dados conheço bem. No primeiro, mais de 150 participantes, superando eventos realizados em Salvador, em Londres e em Cingapura. Interior paulista atraindo mais gente do que capitais internacionais para o mesmo formato. As pessoas vieram porque queriam.

Isso se repete porque a cidade tem algo que os gestores nunca souberam usar: ela topa o novo. Tem escala, formação e disposição para isso.

Quem mora aqui sabe que o produtor rural da região não se fantasia de cowboy. Trata sua propriedade como empresa, com gestão e tecnologia. O funk pulsa forte na periferia, com vida própria e público fiel. E quem estava no Clube do Lago quando o grande Zé Celso Martinez Corrêa se apresentou durante o FIT, em parceria com o SESC, com atores nus na piscina conclamando o público a entrar, sabe que Rio Preto já abrigou experiências que poucas capitais ousaram receber. Não é saudosismo. É memória de uma cidade que, quando tem espaço, vai fundo.

Rio Preto não é sertaneja. Não é roqueira. Não é funkeira. É cosmopolita, no sentido real: recusa-se a ser reduzida a uma caricatura que serve a quem precisa que ela seja pequena.

Nas últimas décadas, Olímpia construiu um protagonismo no turismo que Rio Preto sequer chegou a cogitar. Com o futuro aeroporto internacional e a alcunha de Orlando brasileira, nossa vizinha avança enquanto assistimos. O show do Guns talvez tenha sido um dos últimos alertas: ou a cidade acorda para o que tem, ou volta ao obscurantismo que os próprios dirigentes nos impuseram. O destino recém-descoberto de grandes shows pode ser passageiro. E aí não haverá palco, nem plateia, para dizer que não foi avisado.

O show aconteceu sem a prefeitura. Isso não é elogio. É o problema. Rio Preto não deveria depender de que o mercado a descubra sozinho. A pergunta não é o que a cidade pode fazer quando tem chance. É quantas chances perde enquanto espera por uma gestão que governe à sua altura.

Beto Braga

É empresário