ALCEU VALENÇA – 80 ANOS
Alceu transformou referências nordestinas em linguagem universal, misturando tradição e modernidade, poesia e irreverência, guitarra elétrica e ritmos populares

Alceu Valença é um artista que criou um território musical próprio. Aos 80 anos, completados em julho, o cantor, compositor e instrumentista continua uma das vozes mais originais da música brasileira. Sua obra nasceu do encontro entre o agreste, o sertão e os ritmos nordestinos, mas nunca se limitou ao regional. Alceu transformou referências nordestinas em linguagem universal, misturando tradição e modernidade, poesia e irreverência, guitarra elétrica e ritmos populares.
Nascido em São Bento do Una, Pernambuco, cresceu na Fazenda Riachão, ouvindo os encontros musicais e poéticos promovidos pelo avô. Aos sete anos, mudou-se para Garanhuns e depois para Recife, onde descobriu o frevo, o maracatu e a ciranda. Na adolescência, interessou-se pelo cinema, pela política e pelas questões sociais. O violão chegou pelas mãos da mãe, Dona Delma, que o presenteou às escondidas, contrariando o pai. O episódio combina com sua personalidade inquieta e curiosa.
Estudante de Direito, Alceu foi aos Estados Unidos em 1965 para um curso de três meses. Chegou sem saber inglês e conviveu com estudantes ligados à contestação política e à contracultura. Cantava xotes, emboladas, baiões e martelos agalopados e foi chamado por um jornal local de “Bob Dylan brasileiro”. De volta ao Recife, participou de festivais e, em 1970, mudou-se para o Rio. Ao lado de Geraldo Azevedo, lançou seus primeiros trabalhos.
O reconhecimento nacional veio nos anos 1970, mas a consagração popular ocorreu na década seguinte. Álbuns como “Vivo!” (1976), “Espelho Cristalino” (1977), “Coração Bobo” (1980), “Cavalo de Pau” (1982), o principal de sua carreira, com mais de um milhão de cópias vendidas e “Anjo Avesso” (1983) revelaram um artista capaz de transformar experimentação em canção popular. Seus maiores sucessos são “Tropicana” (1982), “Pelas Ruas Que Andei” (1982), “Como Dois Animais” (1982) e “Anunciação” (1983). Alceu esteve no Rock in Rio, participou das “Diretas Já” e levou sua música a palcos brasileiros e internacionais. Em 1996, ao lado de Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho, integrou O Grande Encontro.
A trajetória de Alceu não se resume aos grandes sucessos. Há nela permanente disposição para recriar a própria obra. Nos anos 2000, voltou à Fazenda Riachão e recuperou memórias da infância, revisitou frevos, maracatus e cirandas e aproximou sua música da formação sinfônica. Aos 80 anos, Alceu representa algo raro: fidelidade à própria identidade sem repetição. Sua música carrega a terra pernambucana, as festas populares e a energia do palco. É regional sem ser provinciana, popular sem ser simplista, sofisticada sem perder a espontaneidade. Alceu não apenas canta Pernambuco. Ajudou a mostrar que uma cultura profundamente enraizada pode dialogar com o mundo.
TOUFIC ANBAR NETO
Médico-cirurgião, diretor da Faceres, escritor e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec).
Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras.