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PAINEL DE IDEIAS

Ah, o futebol!

Naquele instante em que a bola rola, fronteiras geopolíticas, diferenças ideológicas e abismos sociais parecem suspensos no ar, aguardando o final da partida

por Sérgio Clementino
Publicado em 30/06/2026 às 00:12
Sérgio Clementino (Sérgio Clementino)
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Sérgio Clementino (Sérgio Clementino)
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Deus distribui talentos de forma misteriosa, e a mim, decididamente, Ele negou o gene do futebol. Minha relação com a bola nos pés sempre foi de pura incompreensão: ela ia para a esquerda, meu corpo girava para a direita, o resultado era quase sempre um tropeço. Nas peladas de infância, eu era aquele que torcia para ser o último escolhido. Não por orgulho ferido, mas por misericórdia com o espetáculo. Eu não jogo nada. Zero. Minha capacidade de dominar uma bola se assemelha à de uma parede de chapisco. Mas o futebol, generoso que é, não me exigiu o drible para me dar o pertencimento. Não nascer para jogar bola não me impediu de gostar de futebol.

Nenhum outro esporte no planeta é capaz de fazer o que ele faz. O basquete tem sua plasticidade, o tênis seu requinte, o automobilismo sua adrenalina. Mas nenhum deles é capaz de parar o trânsito de uma metrópole, mudar o humor de uma nação, de produzir tantas histórias humanas. O futebol cria heróis improváveis e transforma vilões em redimidos. Em noventa minutos, fabrica mitologias e lendas contadas de pai para filho, discutidas em mesas de bar.

Esse magnetismo mostra o ápice de sua força a cada quatro anos. Em tempos virtuais, onde a vida acontece nas interações frias das redes sociais, a Copa do Mundo opera um milagre: reúne pessoas no presencial. O sofá da sala fica pequeno, os bares transbordam. Desconhecidos se abraçam na rua por causa de um gol. A comemoração não tem filtro, não tem layout planejado, não tem delay. É carne, osso, suor e grito. É o analógico resistindo bravamente no mundo virtual. Nessa era do individualismo, do "cada um por si" institucionalizado, onde o sucesso virou uma jornada solitária de fones de ouvido, a seleção entrando em campo faz o chip mudar. O individual cede espaço ao coletivo. O sofrimento é compartilhado, a estratégia do técnico é debatida, a alegria (e às vezes a tristeza) é fracionada por milhões. Por um tempo, o "eu" dá lugar ao "nós".

O futebol tem um poder ecumênico quase inacreditável. Coloca pessoas, povos e países inteiros em torno de um único evento. Naquele instante em que a bola rola, fronteiras geopolíticas, diferenças ideológicas e abismos sociais parecem suspensos no ar, aguardando o final da partida. São bilhões de seres humanos assistindo ao mesmo drama, respirando no mesmo compasso.

No fim das contas, a verdadeira magia do futebol reside justamente na capacidade de encantar a todos, sem distinção. Ele magnetiza o torcedor fanático na arquibancada e o cientista que nunca chutou uma bola; aproxima culturas distantes que, por noventa minutos, compartilham o mesmo código universal de angústia e êxtase. Meninos em becos de terra batida na América Latina, monges em templos asiáticos e executivos em arranha-céus europeus olham para o mesmo campo com brilho nos olhos. É um feitiço coletivo que ignora regras lógicas, um encanto que transforma um simples pedaço de couro rolando na grama no espelho mais bonito da própria humanidade.

SÉRGIO CLEMENTINO
Promotor de Justiça em Rio Preto.
Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras