PERSONAGENS DA NOSSA HISTÓRIA

A voz do poeta

Walter Roberto Merlotto é autor de sete livros de poemas e vencedor de importantes prêmios literários

por Raul Marques
Publicado há 3 horas
Walter Roberto Merlotto (Lézio Jr.)
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Walter Roberto Merlotto (Lézio Jr.)
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Walter Roberto Merlotto nasceu de parto normal em casa, na rua Primeiro Mestre, e morou os dois primeiros anos de vida na Anchieta, em Rio Preto, no final da década de 1950. Na sequência, ainda bebê, iniciou uma história de mais de meio século com o Instituto Penal Agrícola (IPA).

Filho de agentes penitenciários, ele mudou-se para a Vila do Sossego, uma das várias colônias de funcionários do IPA. As moradias ficavam nas dependências da instituição, que chegou a abrigar em torno de dois mil reeducandos. Eles trabalhavam em diversos ofícios como parte do processo de reinserção à sociedade.

Em um ambiente de segurança, Walter Merlotto cresceu solto, brincou bastante com os amigos e aproveitou as maravilhas naturais do lugar. Nos horários inversos aos da escola, passeava na floresta, nadava na represa, explorava as nascentes, tomava banho de cachoeira e vivia em harmonia com a natureza.

Jamais se esqueceu da tranquilidade e do clima respeitoso da Vila do Sossego. Ainda hoje, no entanto, recorda-se do som do tiro mortal disparado pelo reeducando João Pereira Lima no diretor Javert de Andrade, na década de 1960.

Aos 12 anos, Walter Merlotto se posicionou em uma janela, enxergou uma imagem bucólica, com a lagoa dos patos ao fundo, e sentiu vontade de construir frases para dar vazão ao que sentia. Naquele momento, não teve noção do que aconteceu.

Sem caneta ou lápis à mão, pegou folhas de abóbora, enrolou e escreveu na parede mesmo, mas não assinou por vergonha. Começava ali, sem saber, sua trajetória de escrita.

Enquanto o pai o incentivava a aprender música e o presenteou com um violão, a mãe criava e declamava poemas. Diante das sugestões, passou a escrever inquietações, observações e sentimentos em um caderno.

Não mostrava a produção solitária a ninguém, até que, um dia, criou coragem e apresentou alguns escritos ao avô, Joaquim de Paulo Sant’ana, professor, que prontamente percebeu o talento: “Meu neto, você é poeta...”

Com 22 anos, Walter Merlotto deixou a colônia do IPA. Não porque quis, acabou obrigado. O pai morreu em serviço em um acidente de trânsito, aos 47 anos, na rodovia Washington Luís, na altura da Vila Toninho. Na ocorrência, também faleceu Nelson Ibrahim Lutaif, diretor do IPA.

Conhecedor da rotina do instituto e influenciado pela família (pais e irmã agentes penitenciários), Walter Merlotto prestou concurso público na área e foi aprovado em primeiro lugar. Antes de assumir o posto, no entanto, cursou um semestre do curso de Jornalismo em Ribeirão Preto. Trancou a matrícula ao ser convocado pelo Estado.

Começou a trabalhar em Pirajuí, a 150 quilômetros de distância. Ficou somente seis meses na região de Bauru, já que surgiu uma vaga em Rio Preto. Assim, voltou ao IPA como servidor e permaneceu mais 32 anos, totalizando 52 anos no local, onde viveu momentos intensos, de amizade com outros colaboradores e de aprendizado.

Livros e reconhecimento

Walter Merlotto publicou sete livros de poesia (Divulgação)
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Walter Merlotto publicou sete livros de poesia (Divulgação)

Nos períodos de descanso, Walter Merlotto escrevia poemas modernos, contemporâneos, com versos curtos e, ao mesmo tempo, densos. Apesar do perfil discreto, passou a ser reconhecido e convidado para participar de eventos e de coletâneas.

Publicou o primeiro livro, “Noites Claras”, em 1991, aos 34 anos. Com essa experiência intensa, especial, não parou de produzir. Depois, vieram “Folhas Brancas” (1998), “Refém de mim” (2001), “Vírus” (2009), “Inoxidável” (2013), “A última voz” (2016) e “O invisível” (2021), todos de poesia.

A publicação mais recente ocorreu em março de 2026, com o lançamento de “Estações do Olhar”, volume de haicais, em coautoria com amigos-poetas Sidnei Olivio e Cléber Falquete. Walter Merlotto é grato aos editores Paulo Resende e Lelé Arantes, fundamentais na construção de sua carreira, assim como a bibliotecária Marciana Lopes.

Presente em antologias, ganhou prêmios nacionais, estaduais e municipais, em razão da qualidade do seu trabalho. Em 2012, conquistou o segundo lugar global no XXVIII Prêmio Mundial de Poesia Nósside, na Itália, um grande reconhecimento. Fez palestras em escolas e universidades.

Casado desde 1982 com Milene Merlotto, Walter Merlotto é pai de Danilo Roberto e Denise Cristina e avô de Yasmin, Ana Luíza e Gael. Fã de pop e rock, o poeta diversificou a produção e dialoga com a modernidade, sem perder a essência. Ao lado do filho, tem musicado poemas com apoio de inteligência artificial.

Observa o passado, mas vive intensamente o presente e mira a atenção literária para o futuro.

PERFIL

Walter Roberto Merlotto

Atuação: Poeta e agente penitenciário

Nascimento: São José do Rio Preto

Data: 21/04/1957

Pais: Geraldo Merlotto e

Antônia Sant’ana Merlotto

Irmã: Nilva Lúcia Merlotto Marques

Esposa: Milene Merlotto

Filhos: Danilo Roberto Merlotto e Denise Cristina Merlotto Soares

Netos: Yasmin, Ana Luíza e Gael

Carreira: Trabalhou por 32 anos no extinto Instituto Penal Agrícola (IPA)

Livros: Publicou “Noites Claras” (1991), “Folhas Brancas” (1998), “Refém de mim” (2001), “Vírus” (2009), “Inoxidável” (2013), “A última voz” (2016) e “O invisível” (2021), todos de poesia. Em 2026, participou do livro de haicais “Estações do Olhar”, com Sidnei Olivio e Cléber Falquete

Prêmios: Troféu Moutonnée de Poesia (1998), Troféu Nelson Castro de Poesia (1998), menção honrosa Troféu Moutonnée de Poesia (1999), destaque no XX Concurso Nacional de Poesia (1999), 2º lugar no Prêmio Missões de Poesia – RS (2000), Medalha Flávio Rangel de Literatura (2007), Prêmio Norberto Buzzini de Poesia (2006 e 2007), vencedor do Mapa Cultural Paulista (2007 e 2008), 2º lugar no XXVIII Prêmio Mundial de Poesia Nósside, na Itália (2012) e Prêmio Nelson Seixas (2012 e 2015)

Seleções: Exposição de poema no Museu de Arte Sacra de São Paulo (1984) e Projeto Poesia na Cidade, promovido pela revista Bem-estar (2021)

Homenagem: Na Câmara, em comemoração ao Dia Municipal do Escritor (2007)

Associação: Em 1999, participou da fundação da Associação Rio-pretense de Escritores (Arpe). Segundo secretário da instituição (2000 a 2004)