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ARTIGO

A violência que escolhemos enxergar

Não devemos endeusar mulheres nem demonizar homens

por Lívia Maria de Carvalho
Publicado em 07/08/2026 às 19:48Atualizado em 07/08/2026 às 19:49
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O debate provocado pelo filme sobre o caso Elize Matsunaga ultrapassa a curiosidade em torno de um crime que chocou o país. Ele convida à reflexão sobre a forma como reagimos à violência quando uma mulher ocupa o lugar de autora.

De um lado, há quem romantize Elize, transformando um crime grave em narrativa de vingança ou empoderamento. De outro, há quem a reduza à figura de uma “psicopata”, como se sua conduta pudesse ser explicada apenas por uma suposta monstruosidade.

Nenhum desses extremos contribui para um debate sério.

Um crime não se torna legítimo porque foi praticado por uma mulher, nem deve ser convertido em símbolo de emancipação. A responsabilização é indispensável. Mas também é preciso questionar por que a violência praticada por mulheres provoca tamanho espanto, especialmente quando rompe com a imagem socialmente construída da mulher como alguém naturalmente dócil.

Na última semana, em nossa cidade, uma mulher ainda não identificada foi esquartejada pelo homem com quem estava se relacionando e teve seus restos mortais despejados em bueiros e lixeiras, como se um lixo fosse. A notícia causou choque, como deveria causar. Mas fica a pergunta: esse caso terá a mesma repercussão, a mesma mobilização e o mesmo interesse coletivo que o crime cometido por Elize Matsunaga?

Todos os dias, mulheres são assassinadas por homens com quem mantiveram relações afetivas. Muitas são violentadas, mutiladas e, pouco tempo depois, substituídas por uma nova notícia. A repetição produz um efeito perigoso: a indignação perde força e a violência passa a parecer rotina.

Questionar essa diferença não significa minimizar o crime cometido por Elize nem afirmar que mulheres não devam responder por seus atos. Significa defender coerência.

Não devemos endeusar mulheres nem demonizar homens. Precisamos rejeitar qualquer romantização da violência e questionar por que alguns crimes se transformam em fenômenos nacionais, enquanto tantas vítimas permanecem apenas como estatísticas.

A justiça deve ser igual para todos. E a nossa indignação também. Que este Agosto Lilás nos faça refletir sobre a violência de gênero, sobre a seletividade da nossa indignação e sobre o quanto ainda precisamos evoluir como sociedade.

Lívia Maria de Carvalho

Advogada. Relatora do Comitê Especial sobre Julgamento com Perspectiva de Gênero da OAB/SP.