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ARTIGO

A terceira margem do rio

As travessias da vida precisam de presença, de escuta e de coragem

por Simone Cristina Succi
Publicado em 27/06/2026 às 15:04Atualizado em 27/06/2026 às 15:17
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A terceira margem do rio (1962), de Guimarães Rosa, é um conto que narra a história de um pai comum, cumpridor de seus deveres, e que, sem dar explicações à família, constrói uma canoa e decide partir para viver no rio, recusando as duas margens. A casa, sem o patriarca, sofre mudanças ao longo do tempo: a mãe entristece muito, mas tenta seguir; a irmã se casa, sem festa; o irmão muda de cidade e o narrador, que é um dos três filhos, fica à espera do pai, vivendo uma ausência que não tem fim.

É esse filho quem observa o pai à distância, deixando comida para ele na espera de um gesto, de uma palavra ou de um abraço rápido que fosse. Mas... nada. O pai não desaparece — continua ali, visível, mas inalcançável. E é nessa presença ausente que o conto se constrói, nesse espaço estranho entre estar e não estar, entre fazer parte do mundo e se retirar dele.

Leio o pai de Guimarães Rosa e penso nas tantas terceiras margens dos nossos dias. Elas aparecem nas crianças e nos idosos deixados pela própria família, nos trabalhadores consumidos pela rotina, nos que enfrentam depressão, luto ou ansiedade e que, pouco a pouco, deixam de ocupar o espaço da convivência social. Elas estão vivas. Estão perto, mas parecem habitar outro lugar.

O filho permanece na margem, esperando, oferecendo comida, tentando compreender, sem romper os laços. Mas esse filho também não vai até o pai. Não atravessa o rio que os separa e que é feito de silêncio, de não-ditos, de ausências.

Será que os dias tão tecnológicos de hoje não poderiam vencer toda a distância que existe entre as pessoas, afinal qualquer celular comum pode fazer ligações e videochamadas? Guimarães Rosa nos responde que não, pois as travessias da vida precisam de presença, de escuta e de coragem para permanecer ao lado de quem já não consegue voltar sozinho para a margem.

Esse conto nos faz refletir que pode haver muita gente querida que já está vivendo em sua terceira margem sem que tenhamos percebido. Quantos pais, mães, amigos ou vizinhos continuam fisicamente próximos, mas emocionalmente isolados, esperando que alguém os enxergue?

O rio de Guimarães Rosa segue seu percurso. Ele atravessa nossas casas, nossas cidades e nossas relações de maneira quase imperceptível, criando separações que não são físicas, mas afetivas. Isso aparece nas rotinas aceleradas, na comunicação superficial, na dificuldade de escutar o outro. E talvez a terceira margem do século XXI seja a da solidão de quem permanece visível aos olhos, mas invisível ao coração; um estado em que se está presente, mas não se é alcançado; a voz daquele que fala mas não é ouvido.

Reconhecer esse rio é o primeiro passo para tentar, ainda que com dificuldade, construir pontes onde há quedas e correntezas.

Simone Cristina Succi

Doutora em Linguística Aplicada, professora e redatora de materiais didáticos.