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ARTIGO

A saúde mental docente sob a lupa da NR-1

Os números são alarmantes e desenham um cenário de guerra invisível

por Eduardo Alves de Lima
Publicado há 3 horasAtualizado há 2 horas
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A entrada em vigor da nova redação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) marca um divisor de águas para o mundo do trabalho no Brasil. Pela primeira vez, os riscos psicossociais — como o estresse crônico, o assédio e o esgotamento — deixam de ser "problemas individuais" para serem tratados como perigos ocupacionais que as empresas, incluindo as escolas, precisam gerenciar. Para nós, professores, essa mudança não é apenas técnica; é uma questão de sobrevivência em uma profissão que agoniza sob o peso da negligência e do silenciamento.

Os números são alarmantes e desenham um cenário de guerra invisível. Segundo dados do Ministério da Previdência e levantamentos divulgados pelo portal G1, o Brasil bateu recordes de afastamentos por transtornos mentais, superando 546 mil casos em 2025. No recorte da educação, a realidade é cruel: somente em São Paulo, cerca de 112 professores são afastados por dia devido a problemas de saúde mental. Somos uma categoria que adoece no exercício do saber, vítima de uma estrutura que exige resiliência onde deveria oferecer suporte.

A sobrecarga é o motor desse adoecimento. O trabalho do professor não termina quando o sinal toca. Ele se estende para dentro de casa, na preparação minuciosa de aulas, na elaboração de avaliações e na correção exaustiva de montanhas de provas. Esse "trabalho invisível" consome o tempo que deveria ser de descanso ou lazer.

E há um recorte de gênero que não podemos ignorar: cerca de 80% dos docentes na educação básica são mulheres, segundo o Inep. Para elas, o trabalho extra da escola se funde à jornada doméstica e ao cuidado com a família, criando uma tripla jornada que sufoca qualquer tentativa de bem-estar.

Para reverter esse quadro, é preciso ir além do gerenciamento de riscos. O professor necessita de tempo de qualidade para o estudo e a qualificação profissional, e esse tempo deve ser remunerado e garantido pela instituição de ensino. A formação continuada não pode ser um fardo carregado nas horas vagas, mas um pilar do plano de carreira, financiado por quem lucra com o conhecimento que transmitimos.

A nova NR-1 é uma ferramenta de luta. É fundamental que os professores ocupem seus espaços nas CIPAA (Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e de Assédio) e fiscalizem o cumprimento dessas normas. Não podemos aceitar o assédio moral como "método de gestão". Em casos de abusos, o SINPRO deve ser o porto seguro para denúncias. Somente com uma categoria unida, informada e protegida juridicamente, poderemos transformar a escola em um lugar de vida, e não de desgaste. Afinal, para educar o futuro, o professor precisa estar vivo e são no presente.

Eduardo Alves de Lima

Professor de História e Pedagogo, Diretor Social do Sinpro Rio Preto e Região e Diretor Adjunto de Formação Política e Sindical da FEPESP.