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ARTIGO

A saúde de Rio Preto está derrapando na contramão

É o equivalente a comprar pneus de luxo para um carro que está sem o eixo traseiro

por Julio Cesar da Silva Bortolus
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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A buzina da Secretaria de Saúde de Rio Preto não soa; ela soluça. A saúde da nossa querida cidade, como um veículo oficial da pasta, uma metáfora ambulante de metal e ferrugem, encosta no meio-fio da gestão pública com o radiador fervendo. O motorista, nosso ilustre gestor municipal, desce ajustando o nó da gravata, ignorando o rastro de óleo negro que marca o asfalto — um rastro de recursos que escorrem pelo ralo da ineficiência.

Guiar a saúde pública sob sua batuta (gestão) é como tentar pilotar um caminhão carregado dos anos 60 em uma descida de serra sem freios. O motorista sabe que o freio não responde, mas prefere gastar o orçamento em um rádio de última geração e adesivos cromados para a lataria. Enquanto isso, o motor bate pino. Os "ruídos estranhos" que o veículo emite são, na verdade, os gritos de quem espera seis meses por exames e consultas, mas o gestor liga o som no máximo para não ouvir a realidade.

A manutenção preventiva foi trocada pela gambiarra política. Quando falta o medicamento básico — o óleo lubrificante que impede o sistema de fundir —, o motorista alega "problemas na logística e falta de verba", enquanto assina contratos vultosos ditos como ultramodernos na solução, porém é semelhante a um software que o veículo sequer tem processador para rodar. É o equivalente a comprar pneus de luxo para um carro que está sem o eixo traseiro.

Os passageiros, amontoados na caçamba do descaso, sentem cada solavanco. A negligência da saúde está sempre maquiada no discurso; mas a cada buraco no orçamento, vira um trauma na vida de quem depende das UPAS e do sistema de saúde local. O gestor, do alto de sua cabine com ar-condicionado (mantido com prioridade máxima), olha pelo retrovisor e enxerga apenas números, nunca rostos. Ele ignora que o para-brisa está trincado, dificultando a visão do futuro, porque está ocupado demais retocando a pintura para a próxima foto oficial.

O tanque de combustível está sempre na reserva para o povo, mas sobra gasolina para os comboios de cargos comissionados que apenas observam o veículo degradar. A verdade é que a máquina pública não precisa de um novo design; precisa de um mecânico honesto e de um motorista que entenda que a vida útil de um sistema de saúde não se mede pela quilometragem percorrida em propagandas, mas pela segurança de quem viaja nele.

Ao final do expediente, o veículo é deixado no relento. O motorista leva a chave para casa, satisfeito com a "economia" feita ao não trocar as pastilhas de freio, sem perceber que, em cada curva mal planejada, ele arrisca capotar a dignidade de uma cidade inteira. O diagnóstico é claro: o veículo tem conserto, mas o condutor parece ter perdido o senso de direção. Em Rio Preto, a saúde não caminha; ela patina na própria lama da negligência.

Na mão de um motorista responsável, o combustível dos impostos não serviria para moeda política de alianças, em um veículo de duas pessoas, mas levaria mais passageiros ao destino da vida, e não ao da morte como tem sido em nossa cidade.

Julio Cesar da Silva Bortolus

Empresário.