A Rio Preto de Dante
Logo após a vitória, as portas do céu se fecharam para os fiéis originais

O portal de entrada na campanha dos atuais gestores de Rio Preto sempre foi de sorrisos e santinhos de papel com promessas do éden urbano. Mesmo na posse, apoiados por seus vereadores da base, o Paço Municipal já se apresentava como o Paraíso de Dante.
Assim, vestidos a beca da perfeita empatia, os gestores que entre as massas fizeram sua campanha prometendo a reparação da gestão anterior no uso indevido das verbas e a cura de todas as mazelas.
O cidadão, crente de que finalmente alcançaria a beatitude social, apertou a urna. A colheita divina estava garantida. Ou assim todo rio-pretense pensava, trocando um modelo de gestão anterior criticado por seus gastos e contratos errôneos sem um benefício real à população.
Mas a política tem uma gravidade cruel. Logo após a vitória, as portas do céu se fecharam para os fiéis originais. Aqueles que caminharam no deserto da campanha pré-eleição, carregando os candidatos nos braços, foram prontamente empurrados para o esquecimento.
Acordos limpos de apoio anteriores foram trocados por novas alianças com o inimigo, apenas para ter vereadores na rédea das propostas contrárias ao cidadão que o elegeu, buscando apenas projetos midiáticos, contrários às necessidades da cidade e na transparência da gestão pública.
Novos aliados: figuras que antes habitavam sua oposição de campanha e que, num passe de mágica fisiológica, tornaram-se os novos arcanjos do prefeito. A omissão virou método; o silêncio virou resposta.
Começava a descida aos círculos inferiores. O Purgatório durou pouco, logo atropelado pelo reajuste brutal do IPTU. O carnê, que chegou aos lares como uma punição divina, cobrava o preço de um luxo que ninguém via nas ruas.
As escolas, descritas como templos do saber, hoje penam com uniformes velhos e merendas de baixa qualidade. Na saúde, as filas nas UPAs desenham o verdadeiro purgatório dos vivos pela falta de médicos, onde a espera é um teste de sobrevivência.
Enfim, chegamos ao inferno da gestão atual. No centro desse abismo, não há gelo ou fogo eterno, mas sim o pântano dos contratos duvidosos. Desculpa recorrente na falta de recursos pela falta de um plano de governo, iludindo os esclarecimentos fiscais do povo, porém vistas grossas a vereadores com entidades amigas que brotam do nada sem fiscalizar, e o dinheiro público escorre como névoas sem nada entregar.
Outrora gestores, na guia que nos levaria à terra prometida, hoje assistem a tudo do topo de sua torre de marfim, omissos, cercados pelos demônios da conveniência política. Clara traição ao voto recebido, ignorando o clamor do cidadão.
Hoje, na Rio Preto de Dante, a crítica do cidadão, de jornalistas e até vereadores, justas, democráticas e republicanas, se torna processo judicial ou perseguição por achar ser pessoal, como fuga das responsabilidades como gestor público.
Para a população, resta o eco da famosa frase de Alighieri, adaptada aos novos tempos: “Deixai toda esperança de atendimento, ó vós que aqui morais.”
Julio Cesar da Silva Bortolus
Empresário.