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ARTIGO

A raiva é minha mais nova aliada

Muitas mulheres aprenderam a sentir culpa pela própria raiva, acreditando estar sendo “más”

por Bruna Passetto Seron
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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“Aprendi a sorrir com a boca e chorar com o corpo”, minha irmã me disse durante uma conversa. A frase me atravessou por nomear algo que conheço bem. Reprimi minhas dores para ser “a boa garota”, só esqueceram de me avisar que dores silenciadas podem se tornar uma espécie de prisão perpétua. Agora eu entendo as histéricas.

Durante muito tempo, mulheres transformaram em sintoma aquilo que não podiam transformar em linguagem. O corpo denunciava o que precisava permanecer em silêncio. Emoções silenciadas não desaparecem só porque foram proibidas, elas continuam procurando alguma forma de dar vazão, muitas vezes através do próprio corpo.

Emoções têm uma função: cada uma produz movimentos internos e externos. A tristeza tende ao recolhimento. O medo ao recuo. Já a raiva nos movimenta. Ela aparece quando algo em nós percebe injustiça ou violação, como um alarme avisando que nosso espaço está sendo invadido. Toda raiva nasce de uma necessidade ignorada.

Não por acaso, a raiva feminina foi tão moralizada ao longo da história. Existe uma razão pela qual tantas mulheres aprenderam a transformar indignação em tristeza: mulheres tristes são vistas como sensíveis; mulheres com raiva, como perigosas. Afinal, mulheres em movimento sempre foram mais difíceis de controlar.

Em "Bem-Comportadas", Elise Loehnen discute como a repressão da raiva feminina funcionou historicamente como mecanismo de controle social. A autora traça a origem dessa repressão ao século IV, quando a Igreja estabeleceu os Sete Pecados Capitais. Ela argumenta que a raiva foi historicamente transformada em algo proibido, convertendo uma emoção humana em pecado e transformando questões sociais em problemas individuais e de temperamento. Assim, muitas mulheres aprenderam a sentir culpa pela própria raiva, acreditando estar sendo “más”, quando estão apenas percebendo que seus limites foram ultrapassados.

A raiva, por si só, não é antiética. Sentir uma emoção não é o mesmo que agir a partir dela. Quando escutada, pode funcionar como bússola. Ela carrega uma pergunta: ‘qual necessidade minha está sendo negligenciada?'. Também é sinal de que algo em nós já não suporta permanecer no mesmo lugar.

O problema nunca foi a raiva feminina, mas o que acontece quando mulheres finalmente param de suportar em silêncio. Bendita seja a raiva que me movimentou. Nem tudo se faz com amor.

Bruna Passetto Seron

Psicóloga, especialista em violência doméstica e artista plástica.