A quem importa submeter o Brasil aos EUA?
A realidade mostra que não existe “fórmula pronta” que possa ser importada

Em meio aos inúmeros desafios que o Brasil enfrenta, da desigualdade social à violência urbana, passando por gargalos estruturais na educação e na saúde, que, embora estruturadas, ainda restam com defasagens a serem vencidas, causa espanto que parte da classe política, leia-se bolsonaristas, opte por desviar o foco do essencial para aderir a discursos fáceis e, muitas vezes, perigosos.
Nos últimos tempos, tem se tornado cada vez mais comum ver setores da extrema-direita brasileira exaltando potências estrangeiras como Estados Unidos e Israel como referências absolutas, ignorando deliberadamente suas contradições, especialmente no que diz respeito a direitos humanos, intervenções internacionais e respeito à soberania de outras nações.
Mais grave do que isso é quando esse alinhamento deixa de ser apenas retórico e passa a flertar com a ideia de que agentes externos poderiam, ou deveriam, atuar diretamente em território brasileiro, sob justificativas como o combate ao narcotráfico e ao crime organizado. Trata-se de uma visão simplista e profundamente equivocada, para não dizer canalha.
O enfrentamento ao crime organizado é um dos maiores desafios contemporâneos. Mas não há atalhos. Países que apostaram em soluções baseadas exclusivamente na repressão ou na militarização, muitas vezes com apoio externo, colheram resultados limitados e, em alguns casos, agravaram ainda mais suas crises sociais e institucionais.
Além disso, é no mínimo contraditório tomar como modelo países que enfrentam mal seus próprios problemas internos relacionados ao consumo de drogas, violência e exclusão social, como os EUA. A realidade mostra que não existe “fórmula pronta” que possa ser importada sem considerar as especificidades históricas, econômicas e culturais de cada nação.
A história também nos oferece alertas importantes. Intervenções internacionais, frequentemente justificadas por discursos de segurança ou estabilidade, muitas vezes estiveram associadas a interesses estratégicos ligados a recursos naturais como petróleo e minerais e resultaram em instabilidade prolongada, enfraquecimento institucional e sofrimento para as populações locais. Nesse contexto, é legítimo questionar: a quem serve a defesa de uma aproximação acrítica e subordinada a interesses externos? Certamente não ao povo brasileiro.
Defender o Brasil exige mais do que discursos inflamados. Exige compromisso com a soberania nacional, com o fortalecimento das instituições democráticas e com a construção de políticas públicas eficazes, baseadas na nossa realidade. Isso passa por investimento em inteligência, integração entre forças de segurança, políticas sociais estruturantes e cooperação internacional.
O Brasil não precisa de tutores. Precisa de responsabilidade política, seriedade e compromisso com seu povo. Soberania não se terceiriza.
Carlos Alexandre
Presidente do PT de Rio Preto. Formado em Adm. Pública pela Univ. Federal de Ouro Preto.