ARTIGO

A proposta da educação global

A educação global se apresenta como uma tendência do século XXI

por Leonardo Amorim
Publicado em 12/08/2026 às 19:54Atualizado em 12/08/2026 às 19:59
Leonardo Amorim (Divulgação)
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Durante muito tempo, a escola brasileira construiu parte de sua identidade em torno da preparação para o vestibular. Isso não deve ser tratado como falha, sobretudo num país em que o ingresso no ensino superior ainda representa acesso e transformação de vida. O que muda, porém, é o mundo para o qual o estudante se prepara. As fronteiras profissionais tornaram-se mais porosas, e muitas carreiras já exigem trânsito entre linguagens, tecnologias e culturas.

É nesse contexto que a educação global se apresenta como uma tendência do século XXI. Ela não substitui o conhecimento acadêmico nem dispensa a disciplina intelectual; amplia o sentido de ambos. A Meta 4.7 do ODS 4, da ONU, associa a educação à cidadania global, aos direitos humanos, à cultura de paz, à diversidade e à sustentabilidade. A OCDE entende a competência global como a capacidade de compreender questões mundiais, interagir com diferentes perspectivas e agir com responsabilidade.

Tal formação se torna necessária diante de desafios que não reconhecem fronteiras. A urgência ambiental e climática, as migrações, as desigualdades e as transformações tecnológicas exigem cooperação internacional. O bilinguismo, nesse cenário, deixa de ser apenas uma habilidade valorizada pelo mercado. Ele permite acesso a pesquisas, circulação por ambientes acadêmicos e profissionais e diálogo com pessoas que observam os mesmos problemas por outros ângulos. Aprender outra língua é também compreender que o mundo não pensa de uma só maneira.

A linguagem computacional e a inteligência artificial integram essa mudança. Mais do que dominar ferramentas, o estudante precisa compreender seus efeitos, limites e implicações éticas. Muitas carreiras já combinam repertório humanístico, domínio tecnológico, comunicação intercultural e capacidade de resolver problemas complexos.

Por isso, o vestibular precisa rever seus conceitos. Não basta acrescentar temas contemporâneos a provas que continuam a medir o conhecimento de forma isolada. Os processos seletivos devem reconhecer a capacidade de relacionar áreas, interpretar desafios globais, usar a tecnologia criticamente e compreender a diversidade humana. A escola continuará preparando para o vestibular, mas o vestibular deverá enxergar a formação que o século XXI passou a exigir.

Educar para o mundo não significa afastar o jovem de sua cidade, de sua língua ou de sua história. Significa oferecer-lhe instrumentos para levar tudo isso consigo. Entre São José do Rio Preto e o planeta, entre Machado de Assis e o algoritmo, a boa educação será aquela capaz de conservar raízes sem transformá-las em limites.

Leonardo Amorim

Professor do ensino privado e Mestre em Literatura.