A preta queria ser doutora
Uma trajetória construída com esforço, dignidade e resistência. Mas tudo acabou

A preta queria ser doutora. Quanta luta, quanta renúncia. Doutora Andreia Marins Mulher preta, periférica, da zona norte do Rio de Janeiro, carregando nas costas um sonho que nunca foi leve. Quantas noites mal dormidas. Quantas vezes faltou o dinheiro do lanche. Quantas corridas contra o tempo para não perder o ônibus porque, se perdesse, chegaria atrasada à universidade, e atraso, para quem vem de tão longe, sempre cobra um preço maior.
Quanta luta.
Se quem apertou aquele gatilho soubesse o quanto ela batalhou para chegar onde chegou, demorou, mas ela conseguiu. Doutora. A Andreia Marins, cirurgiã oncológica, especialista no tratamento de endometriose. Uma trajetória construída com esforço, dignidade e resistência.
Mas tudo acabou.
Acabou quando a bala da polícia encontrou o braço armado do estado, mais uma vez, a pele preta. Depois de uma visita aos pais, num gesto de amor e gratidão, veio o fim. Mais uma vez, o preto foi confundido com bandido. Não importa se é doutor. É preto. Não importa se está de toga ou jaleco. É preto. Não importa se o carro é importado ou não. É preto.
Eles sempre se confundem.
Crime doloso? Quando há intenção de matar. Poderia ser, se fosse filho de desembargador, de promotor, filho do seu fulano de tal. Mas, como era apenas mais um corpo preto, vira crime culposo quando dizem não haver intenção. Foi só um erro.
Erro que se repete não é erro, é sistema de aniquilação.
Mais uma vez, estamos diante da inversão da vida. Como normalizar pais enterrando filhos por causa da violência urbana? Até quando? Por favor, parem de nos matar.
A felicidade do branco continua plena, enquanto a do negro é sempre quase. Vivemos uma abolição inacabada, como já apontado por Laurentino Gomes. A abolição foi apenas um feito jurídico. Na prática, seguimos presos a um sistema que nos violenta, que empilha corpos pretos sob a justificativa do erro, de quem deveria proteger.
Mas não é erro, é padrão, é sensação de impunidade, e a certeza de que tudo virará apenas mais um número na estatística. O Brasil segue matando, ceifando, aniquilando corpos pretos. E o mais perverso: o Estado não se engana quanto ao tom de pele que atinge. Nem mesmo um jaleco foi capaz de proteger uma mulher negra de 61 anos, com 30 anos de profissão, da violência estatal. O Brasil, um país que ama a cultura preta, mas não gosta de pessoas pretas. Consome, lucra, celebra história preta, mas mata pessoas pretas.
Não é engano. O objetivo é claro.
E, no fim, fica a pergunta: quantas vezes a polícia ainda vai “errar”, se “confundir”? Porque isso não é confusão. Isso é padrão. E padrão se responsabiliza.
No Brasil, quando a polícia mata assim, quase nunca dá em nada. E, quando dá, sobra para o policial da ponta. Nunca para o comando. Nunca para quem sustenta esse modelo de segurança pública. Secretário não cai. Governador não responde. Nada muda. Por isso, depois de Andreia, virão outras. Paulas, Fernandas, Julianas. Porque isso não é exceção. É política.
O negro não tem um dia de paz. Enquanto estamos de luto pela violência do Estado, ainda assistimos a atos explícitos de racismo acontecendo diante de todos — e o país silencia. Enquanto o mundo clama por justiça em tragédias distantes, aqui seguimos em silêncio sepulcral. E isso também diz muito.
Claudionora Elis Tobias
Presidente do Conselho Municipal Afro. Líder do Comitê de Igualdade Racial. Diretora-Tesoureira da 22ª Subseção da OAB.
Membra do coletivo Mulheres na Política.