A identidade de Rio Preto: veredas da memória
Uma população sem memória torna-se vulnerável à repetição dos mesmos erros

Nossa cidade, como qualquer outra, é feita de ruas, avenidas, praças, prédios. Porém, não é só o concreto que a deixa de pé, pois além dele há algo menos visível sustentando sua existência: a memória.
É a memória que faz com que um conjunto de construções seja mais que isso, e capaz de produzir pertencimento. É ela que faz uma esquina ser lembrada como o encontro de um grupo de amigos, uma praça trazer de volta os anos alegres da banda no coreto e uma comunidade do bairro ser mais do que a soma de seus moradores.
São José do Rio Preto tem uma tradição de ser lembrada por seus indicadores econômicos, pela força de seu comércio, por sua influência regional e por sua capacidade de crescimento. Tudo isso é verdadeiro. Mas uma cidade não é definida apenas por aquilo que produz. Ela também é definida por aquilo que traz lembranças.
Por isso é que a memória coletiva não é um arquivo neutro, pois ela funciona como um álbum de acontecimentos, valores e símbolos que ajudam a construir uma identidade comum em que cada geração recebe uma cidade herdada da geração anterior e, ao mesmo tempo, participa da tarefa de redefini-la.
Assim, quando penso no futuro dessa cidade, a pergunta mais importante talvez não seja quantos habitantes teremos e nem quantos investimentos chegarão aqui. A pergunta é outra: que identidade estamos construindo?
Os acontecimentos recentes da vida política rio-pretense tornam essa reflexão ainda mais necessária. Denúncias, pedidos de investigação rejeitados, disputas institucionais e sucessivos desgastes na relação entre poder público e população não constituem apenas episódios administrativos ou jurídicos. Eles também ajudam a moldar a memória coletiva da cidade. Afinal, a identidade de uma comunidade não é construída apenas por suas realizações, mas também pela forma como responde aos questionamentos que surgem em seu caminho.
A identidade de uma comunidade não nasce dos discursos oficiais. Ela surge dos comportamentos que se repetem ao longo do tempo. Surge daquilo que os cidadãos valorizam, defendem e transmitem às gerações seguintes.
Talvez por isso memória e cidadania sejam inseparáveis. Uma população sem memória torna-se vulnerável à repetição dos mesmos erros. Uma população que desconhece sua própria trajetória perde parte da capacidade de decidir seu destino.
O futuro de Rio Preto não será construído apenas pelos governantes, empresários ou planejadores urbanos. Ele dependerá também da capacidade de seus moradores de preservar referências, exercer a crítica e participar da construção de uma identidade coletiva baseada não apenas no crescimento econômico, mas em valores compartilhados.
As cidades mudam. Isso é inevitável. Por isso, a gente precisa não perder de vista aquilo que lhes assegura o sentido, pois o desenvolvimento constrói edifícios e a memória constrói identidade.
Simone Cristina Succi
Doutora em Linguística Aplicada, professora e redatora de materiais didáticos.